As negociações entre os Estados Unidos e o Irã avançam, mas ainda enfrentam obstáculos significativos. Enquanto o presidente americano, Donald Trump, afirmou que as conversas “progridem bem” em direção a um acordo, analistas e a própria dinâmica das negociações apontam para um cenário repleto de divergências e incertezas.
Segundo o repórter da CNN na Casa Branca Kevin Liptek, apesar de um memorando de entendimento ter parecido iminente no fim de semana, as duas partes continuam travadas em questões de redação do texto final.
A presença de uma delegação iraniana no Catar gerou esperanças de que os mediadores pudessem ajudar a desbloquear as negociações, mas a expectativa, ao menos do lado americano, é de que o processo dure ainda alguns dias.
Divergências sobre o programa nuclear e as sanções
Um dos principais pontos de impasse é o programa nuclear iraniano. Os EUA afirmam que o Irã concordou, em princípio, em abrir mão de seu estoque de urânio altamente enriquecido. Já os iranianos negam que o tema tenha sido discutido em detalhes.
Além disso, Teerã exige mais especificidades sobre quais sanções Washington está disposto a levantar e quais ativos pretende descongelar. Em resposta, autoridades americanas deixam claro que qualquer alívio financeiro só ocorrerá após avanços concretos nas questões nucleares, resumindo a posição com a frase: “sem poeira, sem dólares” — referência ao estoque de urânio enriquecido.
O analista sênior de internacional da CNN, Américo Martins, destacou que, segundo informações vindas dos EUA, nunca se esteve tão próximo de um acordo entre os dois países. Ele mencionou que o secretário de Estado americano, Marco Rubio, em viagem pela Índia, afirmou acreditar que a questão era apenas de ajuste de linguagem no texto, embora tenha alertado que o processo poderia levar mais alguns dias.
Os ataques americanos contra instalações militares iranianas próximas ao Estreito de Ormuz foram justificados pelos EUA como ações defensivas, realizadas após a identificação de movimentações iranianas que representariam risco às suas embarcações e soldados na região.
Khamenei e a nova ordem no Oriente Médio
O líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, que ainda não apareceu publicamente nem gravou vídeos desde o início das hostilidades, divulgou uma declaração escrita afirmando que uma nova ordem estaria surgindo no Oriente Médio com o declínio da influência americana na região, e que outros países “não serviriam mais de escudo para as bases americanas“.
O professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e pesquisador de Harvard Vitelio Brustolin acrescentou que os ataques dos EUA e de Israel não cumpriram o objetivo de limitar o poder iraniano. O Irã, segundo ele, segue projetando poder ao controlar o fluxo de cerca de 20% do petróleo mundial pelo Estreito de Ormuz.
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna observou que nenhum dos principais objetivos declarados da guerra foi alcançado: o arsenal de mísseis convencionais do Irã não foi desmantelado, os estoques destruídos estão sendo repostos, e as relações do Irã com seus aliados regionais, como o Hezbollah e os Houthis, continuam intactas.
De acordo com o analista, o Irã encontra-se em posição de pressão sobre a economia global, o que coloca Trump em um dilema: ceder às condições iranianas para encerrar o conflito ou manter a pressão militar.
Toda vez que Trump anuncia a iminência de um acordo, o Irã o contradiz publicamente, dificultando ainda mais a posição americana. Trump também passou o dia tentando afastar comparações entre o possível entendimento e o acordo nuclear firmado durante o governo Barack Obama, que ele próprio criticou e abandonou.
Acordos de Abraão e o papel regional
Paralelamente, Trump tem pressionado países do Golfo, incluindo Arábia Saudita e Catar, a aderirem aos Acordos de Abraão — acordos de normalização entre nações árabes e Israel. No entanto, a Arábia Saudita deixou claro que não pretende assinar qualquer acordo do tipo sem que haja um caminho irreversível para a criação de um Estado palestino, condição que, no momento, não parece estar sendo atendida.
Vitelio Brustolin ressaltou que essa exigência de Trump é considerada inviável, especialmente após a destruição na Faixa de Gaza, tornando politicamente impossível para os países muçulmanos da região normalizarem relações com Israel neste momento.




