Apesar do seu charme ser cantado em prosa e verso, Salvador vem sofrendo, continuadamente, “amputação demográfica”: desde 2010 sua população já se reduziu de 2,67 milhões para 2,41 milhões de habitantes – a maior subtração entre as capitais brasileiras, segundo o IBGE, empurrando seu declínio da terceira para a quinta posição entre as regiões metropolitanas mais populosas do Brasil.
A “amputação demográfica” ou encolhimento populacional – o termo inglês “shrinking cities” é amplamente consolidado na comunidade científica – demógrafos classificam como fenômeno complexo, impulsionado por fatores estruturais econômicos e sociais. Salvador contrasta com o crescimento histórico da urbanização.
A cidade de Salvador encolheu quase 10 por cento, perdendo acima de 250 mil habitantes em veloz tempo. Um percentual significativo de residentes promoveu o êxodo metropolitano ou migração para o entorno em busca de tranquilidade de vida, menor custo de moradia e sem medos, transferindo-se para municípios circunvizinhos.
Entre os principais eventos determinantes para saída dos soteropolitanos estão os índices de criminalidade, ultrapassando o aceitável. Apontada na lista das capitais violentas do país, Salvador está entre capitais que mais perderam população em 2025, com recuo de 0,18 por cento.
Leia Também:
No catecismo de fatores demográficos, a valorização imobiliária nas metrópoles, cujo preço ultrapassa o valor real e alto custo de vida concorrem à expulsão de moradores do espaço principal e mais ativo, gerando “amputação” demográfica em regiões específicas da área urbana.
Salvador alcançou preocupante e difícil de aturar o patamar de ocupação desordenada, com zonas de risco e dificuldades de infraestrutura, limitando a expansão habitacional interna, além do declínio de nascimentos, seguindo tendência nacional de envelhecimento populacional – e casais optando por não ter filhos ou famílias menores.
O fechamento de empresas, estagnação econômica e a baixa oferta de empregos com carteira assinada espantam também a retenção da população local. Além da redução de habitantes, a cidade mantém inaceitável índice de pobreza e desigualdade social, incluída nos estudos recentes como um dos piores indicadores do país.
Embora os problemas de Salvador representem desafio administrativo, especialistas percebem que também podem ser oportunidade para a reinvenção urbana, inspirada nas cidades inteligentes e isenta de perturbações crônicas. Entretanto, a questão crucial reside, há tempos, no ato de reger o município: a construção civil indica onde construir inúteis e caríssimos viadutos e a exploração imobiliária aponta onde desmatar para o nascer de espigões luxuosos ou condomínios para poucos.
*Professor universitário, economista, jornalista | [email protected]
Fonte:A Tarde




