É uma afronta à nação o vídeo de inteligência artificial exibido na convenção do PL, com a imagem e a voz de Jair Bolsonaro em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. Não importa se há aviso de “simulação”: a tecnologia é vedada e a mensagem desvela finalidade eleitoral iniludível e direta.
Foi um evidente atropelo das normas eleitorais e da moralidade esperada de um relacionamento de políticos profissionais com a cidadania brasileira saudável. Trata-se de um flagrante perfeito de “deepfake”; artifício utilizado para criar ou alterar realidades, reduzindo os fatos de verdade à poeira das interpretações.
A infração não se pode subentender como mero progresso tecnológico ou inocente inovação: o descalabro traz o risco concreto de alterar a percepção do eleitor. Estamos falando de política, logo vale sempre confirmar informações em fontes confiáveis, residindo neste item a ruptura do contrato social entre as partes.
A democracia depende de confiabilidade – e “deepfake”, quando usada para fins eleitorais, corrói este necessário atributo, ao igualar o certo ao errado. A grosseria como método serve de alerta: nenhum partido pode testar limites da lei e das regras de civilização com ferramentas de confusão entre o real e simulacros.
Os transgressores sabiam dos efeitos de seu ardil, pois a responsabilização exige prova de participação, autorização ou conhecimento prévio da ilicitude. O ministro Alexandre de Moraes advertiu: “a eventual concordância de Jair Messias Bolsonaro (…) constituiria nova e grave transgressão à decisão judicial”.
Quando um condenado a prisão domiciliar é colocado virtualmente em cena para falar de política, o problema deixa de ser partidário e passa a ser institucional. Por outro lado, se a defesa do preso mantiver a alegação de ignorância, a culpa recairá sobre o candidato do PL, pois restará provada sua autorização. O possível desfecho assemelha-se ao xadrez – o jogo –, no qual se desenha o xeque-mate contra o mecanismo abjeto de fraude e trapaça.
Fonte:A Tarde




