Esta semana, a advogada Angela Fraga encontrou em meio a objetos guardados em casa um caderno com anotações em grego, material usado no estudo doméstico do idioma pela sua mãe, a escritora e poeta Myriam Fraga, morta há dez anos, que será homenageada na décima edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), que vai ocorrer de 5 a 9 de agosto. “Ela estudava muito, era autodidata e chegou a fazer aulas de grego”, conta Angela, que ressalta a erudição nos poemas de sua mãe.
Filha única do médico Orlando de Castro Lima e da dona de casa Beatriz Pondé de Castro Lima, Myriam conviveu desde criança com amigos do seu pai, um poeta diletante que nunca quis ser publicado por achar que seus poemas não eram bons, e que recebia em sua casa, na Avenida Princesa Leopoldina, na Graça, o escritor Jorge Amado e o pintor e escultor Mirabeau Sampaio.
Com o tempo, o doutor Orlando abriu o acesso à biblioteca para que a jovem Myriam tivesse acesso a livros à época restritos aos homens. “Não se podia ler tudo, as moças tinham um padrão de leitura”, conta Angela. A mocinha, que na infância declarou que queria ver o seu nome na capa de um livro, passou a decorar poemas e fazer batalhas de leitura com o pai, uma das brincadeiras favoritas da família. “Quando criança, ela teve muita pressa em aprender a ler para não precisar pedir que alguém lesse pra ela”, conta Angela.
Myriam casou-se aos 19 anos com o advogado Carlos Fraga e foi morar com o marido em uma casa na mesma rua em que cresceu. Uma casa grande, com uma vasta biblioteca: a literatura amada por Myriam e os livros de direito do marido. Mas o matrimônio precoce e a maternidade aos 20 anos a impediram de realizar o sonho de ter uma carreira universitária.
Em 1974, o poeta Florisvaldo Mattos e Myriam tornaram-se sócios da Editora Macunaíma, criada em 1957 pelo cineasta Glauber Rocha, o poeta Fernando da Rocha Peres, o artista plástico Calasans Neto e o cineasta Paulo Gil Soares. “Era uma editora que tinha uma produção muito cuidada, artisticamente cuidada”, relata Angela.
Foi a Macunaíma, aliás, que publicou dez anos antes, em 1964, o primeiro livro de Myriam, Marinhas. Depois que o livro saiu, a poeta foi a um jantar na casa de seu pai e encontrou Jorge Amado e Zélia Gattai. O escritor havia lido um artigo elogioso ao trabalho de Myriam e pediu alguns exemplares do livro para enviar a amigos. “Ela achou que Jorge Amado esqueceria o assunto ao sair de sua casa. Mas no dia seguinte, o motorista dele apareceu para pegar os livros, que foram enviados com um cartão para Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Stella Leonardos”, conta Angela.
A convite do engenheiro Geraldo Magalhães Machado, que integrava o Conselho Estadual de Cultura, Myriam coordenou entre 1980 e 1986 a Coleção dos Novos da Fundação Cultural do Estado da Bahia, voltado para escritores no início da carreira. “Eu acho que ficou um pouco essa vontade de ter feito uma carreira acadêmica e ela gostava muito de estar em contato com jovens escritores”, pondera a filha.
A Coleção dos Novos lançou nomes como Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro, que foi estagiário e depois funcionário do setor de literatura da Funceb, onde começou a trabalhar aos 20 anos de idade. Em 1981, o seu livro de contos Já vai longe o tempo das baleias foi a terceira obra editada pelo projeto Coleção dos Novos. “É um livro sobre Itapuã, o bairro onde eu cresci”, conta Carlos, que classifica como “decisiva” a influência de Myriam em sua carreira.
“Eu era um escritor inédito e tive esse grande privilégio do convívio com ela”, diz o escritor, ressaltando que esse livro lhe abriu as portas para o meio literário. Sobre a amiga e antiga chefe, o escritor destaca como qualidades a simplicidade, a generosidade e o fino trato. “Eu nunca vi Myriam se alterar, mesmo com as dificuldades, sempre teve uma postura de elegância, de humanidade”, atesta o escritor.
A filha Angela apresenta uma versão um pouquinho diferente sobre Myriam. “Ela tinha uma personalidade muito forte, era filha de Iansã. Mas quem não a conhecia muito a achava suave e tranquila”, declara Angela.
Em 1982, quando o amigo Jorge Amado completaria 70 anos, Myriam decidiu criar uma exposição itinerante sobre o principal escritor brasileiro. “Ela perguntou a ele sobre o material que ele tinha e ele a convidou para ir à sua casa no Rio Vermelho”, relata Angela.
Jorge exibiu à amiga tudo o que ele tinha guardado referente ao seu trabalho durante a sua vida. Textos originais, fotografias, as primeiras edições de seus livros, cartas. Impressionada com a grandiosidade do acervo, Myriam sugeriu a criação de uma instituição para abrigar o material.
Zélia informou que a Universidade de Harvard estava interessada no acervo, mas que ela era contra o material ser retirado do país. Myriam, que desde 1984 assinava a coluna dominical Linha d’água em A TARDE, passou a usar o espaço para defender a criação de um instituto que abrigasse a obra de Jorge.
Reitor da Ufba naquele período, o odontologista Germano Tabacof convidou Myriam para uma conversa e manifestou o interesse da universidade em gerir o acervo. Jorge não aprova a ideia por temer que um futuro reitor, que eventualmente não gostasse dele, desse fim ao material de toda uma vida do escritor.
Carlos Fraga, o marido de Myriam, assume a tarefa de criar o estatuto de uma futura fundação e todo o seu arcabouço jurídico, o que permitiu a realização de convênios com diferentes instituições, mantendo a administração do acervo com a Fundação Casa de Jorge Amado.
A Ufba cedeu bibliotecários e estudantes para organizar e catalogar os documentos. O então governador João Durval cedeu um imóvel no Largo do Pelourinho e o antigo Baneb cedeu o outro. A reforma das casas ficou a cargo da Odebrecht.
Mesmo hesitante, por não ter experiência administrativa, Myriam aceitou a indicação de Jorge Amado para que ela dirigisse a fundação. “Ele riu quando ela disse que não sabia administrar nada e afirmou que ela aprenderia”, conta Angela.
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Qualidade
Filha de Jorge e Zélia, a escritora Paloma Amado cobre de elogios a obra de Myriam. “Ela foi uma poeta absolutamente extraordinária em uma Salvador com uma literatura dominantemente masculina”, pontua Paloma, destacando como Myriam se impôs pela sua qualidade literária e pela sua capacidade de se aproximar do leitor através da sua poesia.
O poeta e professor Florisvaldo Mattos atesta a competência da amiga como gestora da Fundação Casa de Jorge Amado. “Desde a criação, Myriam Fraga imprimiu uma dinâmica produtiva e criteriosa, que permitiu tornar a instituição uma das mais atuantes da Bahia”, ressalta o poeta.
Florisvaldo destaca que a fundação atua no campo de várias linguagens e atividades artísticas, promovendo concursos, exposições, publicações e seminários. “Foram atividades que tornaram a fundação nacionalmente conhecida e respeitada”. No plano literário e editorial, a Fundação Casa de Jorge Amado promoveu a edição de livros de poesia e a Revista Exu, sob a responsabilidade de Claudius Portugal.
O poeta destaca que entre a metade da década de 1980 e o fim da década de 1990 a fundação foi um canal muito importante na divulgação de personalidades e fatos culturais da Bahia.
Florisvaldo relembra também o papel de Myriam como colaboradora literária em A TARDE, como cronista à frente da coluna Linha d’Água: “Foi um período fértil de acontecimentos sociais e culturais; e Myriam escreveu biografias, revelando-se numa delas profunda conhecedora dos trânsitos românticos de Castro Alves”.
Produção

Florisvaldo e Myriam se conheceram na década de 1960 e, ao analisar a caminhada da amiga pela produção literária, o jornalismo e a atuação como ocupante da cadeira 13 da Academia de Letras da Bahia, o professor toma emprestada a opinião do poeta Ruy Espinheira Filho, que em crônica publicada em seguida ao falecimento dela, considerou-a “sem favor nenhum, a mulher que melhor escreveu poesia em nosso país, depois da grande Cecília Meireles”.
Para Florisvaldo, a poesia de Myriam Fraga insere-se no caudal de cultura que, a partir de fins dos anos 1950, com os primeiros passos da chamada Geração Mapa, liderada por Glauber Rocha, contribuiu para consolidar a presença definitiva do modernismo na literatura baiana.
Myriam aderiu ao movimento, junto com João Ubaldo Ribeiro, Sonia Coutinho, David Salles, Noênio Spínola e outros. “Nesta perspectiva, escreveu e publicou uma poesia portadora de lirismo forte e linguagem altamente expressiva, tornando-se, a nossa maior expressão feminina na literatura”, declara Florisvaldo.
Idealizadora da Flipelô, Myriam não conseguiu ver o seu projeto sair do papel. Uma leucemia pôs fim a uma vida apaixonada pelas letras, em fevereiro de 2016, um ano antes da primeira edição da festa.
“A Flipelô foi um sonho de Myriam e nosso por muitos anos. Mas houve um medo que não desse certo, Myriam era muito prudente”, diz Paloma, ressaltando que quando Angela assumiu a fundação houve a decisão de homenagear a poeta fazendo a Flipelô.
Atual ocupante da cadeira 13 da ALB, a escritora e professora Edilene Matos enfatiza o papel de Myriam Fraga não apenas para a literatura da Bahia, mas do Brasil. “É uma importância imensa. Myriam é de uma poesia plástico-poética, de pedra e nuvem, de sol e água, de som, cores, e que se convertia sob o olhar lírico e irreverente de Myriam”, afirma a escritora.
Para a professora, a poesia de Myriam ainda reverbera em “múltilplas cintilâncias”. Um brilho que não se apaga. Edilene define a obra de sua antecessora na ALB também como uma teatralização da subjetividade. “Essas marcas do feminismo e da subjetividade permearam a lírica de Myriam Fraga”, define a imortal.
Fonte:A Tarde



