Baiana campeã olímpica, Ana Marcela quebra recorde do Canal da Mancha

PODP BAHIA
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O mundo inteiro reparou, nesta quarta-feira, 22, em uma baiana nas águas do Oceano Atlântico – campeã olímpica, Ana Marcela Cunha atravessou 37km do Canal da Mancha em 8h27m12s e estabeleceu o novo recorde sul-americano entre homens e mulheres do percurso entre Dover, na Inglaterra, e a costa da França.

A campeã olímpica entrou na água por volta das 5h no horário local, equivalente à 1h da madrugada em Brasília, e realizou um sonho que acompanhava Ana Marcela desde os 14 anos, acrescentando mais um feito internacional à trajetória de uma das maiores atletas de águas abertas da história.

O Canal da Mancha possui aproximadamente
34 quilômetros em linha reta, mas a distância efetivamente percorrida pelos nadadores costuma ser maior. Correntes marítimas e alterações de maré desviam os atletas da rota mais curta e exigem mudanças constantes de direção durante a tentativa.

Ana Marcela Cunha no Canal da Mancha
Ana Marcela Cunha no Canal da Mancha – Foto: Jonne Roriz/COB

Além do novo recorde continental, Ana Marcela pode ter o reconhecimento do Guinness World Records como a campeã olímpica de maratona aquática mais rápida a atravessar o Canal da Mancha. Um representante da organização acompanhou a tentativa, mas o registro ainda depende da análise da documentação e da homologação oficial.

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A melhor marca feminina absoluta do Canal pertence à tcheca Yvetta Hlaváčová, que completou a travessia em 7h25, em 2006. Já o recorde mundial pertence ao alemão Andreas Waschburger, com 6h45m25s.

Largada foi definida pelas condições do mar

Ao contrário das competições convencionais, uma tentativa de atravessar o Canal da Mancha não possui dia e horário definidos com grande antecedência. Cada nadador recebe uma janela na qual a organização monitora as condições climáticas e marítimas antes de autorizar a largada.

A janela reservada para Ana Marcela foi aberta no dia 20 de julho e seguiria até o dia 29. Durante esse período, a equipe acompanhou fatores como intensidade do vento, altura das ondas, visibilidade, temperatura da água, correntes marítimas e movimento das marés.

Ana Marcela havia chegado à Inglaterra na semana anterior para concluir a adaptação e aguardar a definição do momento mais seguro. Na véspera da tentativa, a previsão indicava tempo firme, ausência de chuva, visibilidade superior a cinco quilômetros e temperatura ambiente próxima dos 23°C.

Ana Marcela Cunha no Canal da Mancha
Ana Marcela Cunha no Canal da Mancha – Foto: Divulgação I COI

A temperatura da água estava estimada em aproximadamente 19°C, acima dos 15°C a 17°C normalmente encontrados na região nesta época do ano. Mesmo em uma condição considerada favorável, a exposição prolongada ao frio permaneceu como uma das principais dificuldades do desafio.

Nos Jogos Olímpicos, por exemplo, as piscinas ficam entre 25ºC e 28ºC, com águas muito mais quentes que na travessia do canal.

Regras impedem uso de roupa térmica

Todos os detalhes precisam ser alinhados justamente porque a travessia é realizada sob regras específicas. Apesar da baixa temperatura, Ana Marcela não pôde utilizar roupa térmica e entrou na água com um maiô convencional.

Além disso, também não era permitido tocar na embarcação de apoio ou receber qualquer tipo de sustentação física durante o percurso. Assim, o barco oficial acompanhou a nadadora durante toda a tentativa, orientando a navegação e transportando os profissionais responsáveis pela segurança, pelo suporte e pela homologação do resultado.

Ana Marcela Cunha no Canal da Mancha
Ana Marcela Cunha no Canal da Mancha – Foto: Jonne Roriz/COB

Ana Marcela precisou permanecer na água durante as 8h27, enfrentando ondas, correntezas, alterações de maré e o intenso tráfego de embarcações de uma das rotas marítimas mais movimentadas do planeta.

A equipe contou com o treinador Kafu e com o guia Igor de Souza, tricampeão da Volta de Manhattan e um dos poucos brasileiros a atravessar três vezes o Canal da Mancha. Também estavam envolvidos um barqueiro, um árbitro responsável pelo cumprimento das regras, um representante do Guinness e profissionais encarregados do registro audiovisual.

A reunião dessas dificuldades explica por que o percurso entre Inglaterra e França é frequentemente chamado de “Everest da natação”, exigindo que o atleta se adapte a um ambiente imprevisível, no qual as condições podem mudar ao longo das horas.

Sonho começou aos 14 anos

Mesmo depois de conquistar o ouro olímpico nos 10 quilômetros da maratona aquática nos Jogos de Tóquio, Ana Marcela apontava a travessia do Canal da Mancha como o maior desafio de sua trajetória.

Acredito que esse é o maior desafio da minha vida. Claro, o ouro olímpico foi desafiador, mas a travessia do Canal da Mancha é um sonho de adolescente. Desde os meus 14 anos queria fazer isso e agora encontrei o melhor momento para esse desafio. É uma grande realização estar aqui”, declarou antes da tentativa.

Diferentemente de uma competição olímpica ou mundial, o Canal da Mancha não coloca os nadadores em uma disputa simultânea por posições. O confronto é principalmente contra a distância, o frio, o desgaste físico e mental e as mudanças do ambiente marítimo.

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Treino de quase 12 horas simulou condições do Canal

A preparação incluiu atividades específicas no Centro de Treinamento do Time Brasil, no Rio de Janeiro, e em São Paulo. Uma das principais simulações aconteceu na Represa Billings, onde Ana Marcela nadou durante quase 12 horas em água com temperatura próxima à que encontraria no Canal da Mancha.

O treinamento permitiu avaliar a reação da atleta à exposição prolongada ao frio, o ritmo que poderia ser sustentado durante várias horas, a estratégia de alimentação e a capacidade de manter a concentração em condições adversas.

Ana Marcela em treino na Represa Billings, em São Paulo
Ana Marcela em treino na Represa Billings, em São Paulo – Foto: Jonne Roriz/COB

A campeã olímpica contou com o suporte da equipe multidisciplinar do Comitê Olímpico do Brasil, e os dados recolhidos durante a preparação e a travessia também poderão ser utilizados em estudos técnicos voltados à sequência da carreira e ao ciclo olímpico para os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028.

George Cunha, pai da atleta e líder da equipe no projeto, explicou antes da tentativa que o acompanhamento permitiria uma reavaliação das estratégias de treinamento para as seletivas olímpicas dos 10 quilômetros da maratona aquática.

Ana Marcela em treino em Folkestone
Ana Marcela em treino em Folkestone – Foto: Jonne Roriz/COB

Time Brasil TV acompanhou os bastidores

Em reconhecimento ao peso histórico do feito, a preparação e a travessia foram documentadas pela Time Brasil TV, canal do Comitê Olímpico do Brasil. O videorrepórter Fel Meireles, especializado em esportes radicais, e o fotógrafo aquático Jonne Roriz acompanharam os treinamentos no Brasil e viajaram à Inglaterra para registrar os últimos preparativos e a tentativa.

Ana Marcela e Equipe TBTV em Folkestone
Ana Marcela e Equipe TBTV em Folkestone – Foto: Jonne Roriz/COB

Jonne foi premiado por uma fotografia de Ana Marcela nadando ao lado de um peixe que saltava durante a prova de águas abertas dos Jogos de Tóquio, na qual a brasileira conquistou o ouro olímpico.

Ana Marcela Cunha com peixe
Ana Marcela Cunha com peixe – Foto: Jonne Roriz/COB

Centenário da primeira travessia feminina

Além do recorde, a travessia de Ana Marcela foi carregada também de simbolismo – o feito foi alcançado justamente no ano em que a primeira travessia feminina do Canal da Mancha completa um século.

Em 1926, a norte-americana Gertrude Ederle, medalhista olímpica da natação em piscina, tornou-se a primeira mulher a concluir o percurso, com o tempo de 14h31. A maratona aquática, por sua vez, somente passou a integrar o programa dos Jogos em Pequim-2008.

Ana Marcela Cunha
Ana Marcela Cunha – Foto: Divulgação I Time Brasil

Maior campeã da Travessia Mar Grande-Salvador

Mas, se hoje o mundo assiste Ana Marcela nadar, quem apreciou primeiro esse espetáculo foi a Bahia, terra natal da nadadora. Antes de estabelecer o recorde sul-americano no Canal da Mancha, Ana Marcela realizou uma etapa importante da preparação na Baía de Todos-os-Santos.

Em novembro de 2025, a atleta voltou a disputar a Travessia Mar Grande-Salvador, realizada pelo Grupo A TARDE e pela A TARDE FM, com organização da Ambiance Esporte. A nadadora voltou depois de mais de dez anos afastada da competição, ampliando o desafio tradicional e realizando um percurso de ida e volta.

Ana Marcela campeã da Travessia Mar Grande-Salvador
Ana Marcela campeã da Travessia Mar Grande-Salvador – Foto: José Simoes / AG. A TARDE

Ela saiu do Porto da Barra, nadou até Mar Grande e retornou a Salvador, completando mais de 24 quilômetros. Mesmo com o desgaste acumulado no primeiro trecho, Ana Marcela percorreu a parte oficial da prova em 2h20, registrou o menor tempo entre as competidoras e conquistou seu sétimo título.

Com o resultado, ampliou o próprio recorde como maior campeã da história da Travessia Mar Grande–Salvador. “Acho que todos os treinos, cada competição, cada desafio, nos preparam melhor para o Canal da Mancha. Quem topou fazer a saída e a volta hoje sabe o quanto isso representa. Estou muito feliz com essa preparação”, disse após a prova.

Nasci aqui, vivi aqui, saí pra conquistar o mundo e agora estou de volta. Isso representa muito pra mim“, completou.

Ana Marcela Cunha na Travessia Mar-Grande Salvador
Ana Marcela Cunha na Travessia Mar-Grande Salvador – Foto: Divulgação I Travessia Mar Grande-Salvador





Fonte:A Tarde

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