o papel social do novo Skatepark do Subúrbio

PODP BAHIA
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Salvador acaba de ganhar a pista de skate mais bem avaliada do país. São 7,5 mil metros quadrados de concreto entregues no Subúrbio Ferroviário, o único equipamento do Brasil a receber a certificação 4 estrelas da World Skate. Essa nota abre caminho para que a cidade sedie campeonatos nacionais, mundiais e até etapas classificatórias para o ranking olímpico.

Skatista desde a adolescência, arquiteta e urbanista de formação, Marília Souza é integrante do coletivo Dendê Crew e acompanha há anos o sonho de ver a cidade receber um equipamento à altura da cena baiana. “O mais honroso é que a melhor pista do momento foi entregue para a galera do gueto, a galera da favela, para o Subúrbio de Salvador, onde a gente vai ver o impacto social que ela vai causar”, diz.

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Para Marília, a chegada do equipamento também marca um movimento maior de descentralização do esporte no país. “Durante muito tempo, investimentos, grandes eventos e oportunidades estiveram concentrados na região Sudeste, enquanto outras regiões seguiram formando atletas, produzindo cultura e mantendo a cena viva, porém com pouca visibilidade e menor acesso a estruturas de excelência”.

A pista tem uma arquitetura particular. Há uma big section, o conjunto principal de obstáculos grandes de uma pista, com plataforma em reta contínua de 45 graus, um euro gap (um vão entre dois módulos) que conduz a um corrimão descendo a escadaria, obstáculos inclinados que podem ser usados subindo ou descendo.

Além disso, pela primeira vez em uma pista pública baiana desse porte, um kink – sequência de rampa, trecho plano e nova rampa integrados ao conjunto. “Ela tá jogando”, resume Marília no jargão do skate, para dizer que a técnica construtiva está afinada. “Uma composição extremamente rica para o skateboard”.

Imagem ilustrativa da imagem Mais que esporte: o papel social do novo Skatepark do Subúrbio
Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

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Idealizador e professor do projeto social Meninos do Centro, Júlio Santana ensina o esporte há cinco anos a crianças em situação de vulnerabilidade. Ele próprio já esteve do lado de fora do circuito.

“O esporte era muito carente aqui em Salvador. Foi desvalorizado. Profissionais tiveram que trabalhar com outros empregos. Eu também desisti, em 2007, parei de andar e fui trabalhar, depois entrei para o crime. Mas, larguei tudo e voltei de skate”, lembra.

É essa mesma trajetória que Júlio enxerga se repetir entre seus alunos. Ele lembra do caso de dois meninos que conhece por apelido, Mosquito e Cebolinha, que antes do projeto ficavam na Praça da Piedade, em Salvador, esperando lanche e doações.

Depois de entrarem para o Meninos do Centro, a rotina das famílias também mudou. A mãe de um deles passou a trabalhar e reduziu o consumo de bebida alcoólica. Hoje, Mosquito desponta no ranking baiano amador de skate.

Para Júlio, contudo, uma pista nova não resolve nada sozinha. Ele defende que o equipamento seja acompanhado por trabalho social contínuo, sob risco de a estrutura virar só concreto vazio.

Entre os desafios que ele elenca para os próximos anos estão a garantia de segurança no entorno, o apoio de gestores públicos com ações e eventos estaduais e, principalmente, a manutenção de um projeto social genuíno que beneficie atletas e crianças.

A avaliação de que a pista precisa de vida além da competição também aparece na fala de Marília. “Quando ocupamos um espaço, damos vida a ele”, diz a skatista.

“Isso gera circulação de pessoas, fortalece o comércio local, amplia a sensação de segurança e transforma o espaço público em lugar de convivência”.

Programação

Marília Gabriela e Júlio Santana são skatistas
Marília Gabriela e Júlio Santana são skatistas – Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

É esse discurso que orienta a programação anunciada para o Skatepark do Subúrbio. Além de campeonatos, o equipamento deve funcionar como escola o ano inteiro. O programa STU Classes vai integrar aulas de skate à rede pública de ensino, como incentivo à frequência e ao rendimento escolar, além de oficinas de capacitação em profissões ligadas à cultura urbana – fotografia esportiva, edição de vídeo, manutenção de equipamentos e montagem de eventos – pensadas como porta de entrada para o primeiro emprego da juventude local.

A obra integra o conjunto de intervenções urbanas do projeto do VLT de Salvador e Região Metropolitana, e é assim que a enxerga o presidente da Companhia de Transportes do Estado da Bahia (CTB), Eracy LaFuete, responsável pelo empreendimento. “O VLT de Salvador e RMS é o eixo estruturante desse processo, mas o impacto vai muito além da mobilidade.

Estamos integrando territórios, requalificando espaços públicos, devolvendo a orla à população, criando áreas de convivência, esporte e lazer”, afirma.

“O legado que estamos construindo não será medido apenas em quilômetros de via ou metros quadrados de equipamentos públicos, mas na capacidade de devolver às pessoas o orgulho do lugar onde vivem e a confiança em um futuro melhor”.

Imagem ilustrativa da imagem Mais que esporte: o papel social do novo Skatepark do Subúrbio
Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

Marília destaca ainda outra frente de mudança: a presença feminina no esporte. Pela primeira vez, Salvador recebe um evento nacional de skate com a categoria feminina disputada junto à masculina.

“Mais importante do que construir pistas é construir ambientes onde meninas e mulheres se sintam acolhidas, respeitadas e pertencentes”, comenta.

Passados os primeiros campeonatos, resta saber se o Skatepark do Subúrbio vai cumprir a promessa que carrega desde a inauguração. Marília já tem em mente o que vai definir essa resposta daqui a cinco anos. “Quero ver uma pista onde o respeito, a união, a diversidade, o apoio mútuo e a diversão sejam tão importantes quanto qualquer manobra”, diz.





Fonte:A Tarde

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