Comer bem e de forma consciente nunca custou tão caro. Em Salvador, a realidade no mercado de alimentos trouxe um cenário preocupante: os produtos in natura, essenciais para uma dieta saudável e sustentável, registraram altas de preço muito superiores às dos alimentos processados e ultraprocessados. E quando se comparam alimentos de produção convencional e os produzidos organicamente, a diferença de preços pode ser de 50% a até 100% mais caros para o consumidor final.
Diante dessa disparidade, o soteropolitano acaba se vendo em um dilema: como priorizar o meio ambiente e a própria saúde se o lado financeiro aponta para os industrializados como opção mais acessível? A resposta para esse quebra-cabeça envolve informação e redes de consumo solidário.
A conta que não fecha
De acordo com os cálculos da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), a cesta básica em Salvador subiu 5,29% só em maio, em comparação ao mês anterior, com um aumento nominal estimado de R$ 33,00. Com a alta, a cesta passou a custar R$ 657,01. A elevação continuou uma tendência que já vinha sendo registrada. No mês de março, o crescimento alcançou 5,21%.
Dos 25 produtos da cesta básica em Salvador, 14 registraram alta nos preços e 11 apresentaram redução. As maiores altas foram registradas justamente em produtos in natura: batata inglesa, banana prata, tomate, cebola e cenoura. Entre os artigos que sofreram queda, nove são processados em algum nível: flocão de milho, óleo de soja, açúcar cristal, pão francês, café moído, macarrão, farinha de mandioca, manteiga e queijo muçarela. Apenas dois dos que ficaram mais baratos, ovos de galinha e maçã, são comercializados da forma natural.
Tradicional versus orgânico: os impactos ambientais
Quando as pessoas cozinham e servem a comida no dia a dia, quase sempre não se atentam quanto aos impactos causados pelo cultivo dos alimentos. Conforme explica Josivaldo Dias, gerente comercial da Unicafes Bahia (União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária), as diferenças entre a produção tradicional e de alimentos organicamente cultivados vai bem além do uso de agrotóxicos.
“Não se trata só de ter alimento saudável, livre de agrotóxico. A produção orgânica normalmente está ligada à agricultura familiar. Quando você faz uma produção orgânica, você tem um maior zelo pelo meio ambiente”, contou. De acordo com o economista e especialista em sociobioeconomia, a produção orgânica é feita em escala menor, o que evita o desmatamento de grandes áreas e destruição de florestas.
Outra consequência é a preservação das nascentes. O desmatamento, a irrigação de grandes áreas e o uso de grandes maquinários nos terrenos pode destruir nascentes e prejudicar os mananciais de água. “E, claro, você não usa agrotóxicos, o que evita a contaminação do solo e da água”, pontuou. Josivaldo Dias descreve que, na produção convencional, com processo mecanizado, “ninguém está preocupado em preservar nascentes, em manter florestas em pé, em não usar agrotóxicos. É o contrário”.
Benefícios para a Saúde
Mercadorias produzidas sem agrotóxicos e manufaturados dentro do conceito orgânico podem trazer benefícios reais e de longo prazo para a saúde. Além de, obviamente, evitar ou diminuir o contato com químicos nocivos, os alimentos orgânicos enriquecem a alimentação, fornecendo mais nutrientes. “Na produção familiar, o agricultor consome o que produz e vende o excelente”, disse Josivaldo Dias, argumentando que o cultivo e a colheita são feitos de forma muito mais cuidadosa.
Para exemplificar, Josivaldo Dias cita a manufatura do chocolate. Conforme explicou, chocolate aparece em diversos artigos como um alimento que traz diversos benefícios à saúde. No entanto, é necessário que seja consumido em uma determinada quantidade e considerando a sua composição.
“Se você for comer um chocolate tradicional, de um grande fabricante, foi usado um monte de aditivos que não vai trazer benefício nenhum. Mas é diferente se você comer o chocolate produzido pela agricultura familiar, o chamado chocolate fino. Ele vai ter mais cacau dentro dele, pelo menos 70%, e todos aqueles benefícios que tem na amêndoa e no cacau”, detalhou.
Josivaldo aconselha que, na hora de comprar, é importante ficar atento ao rótulo da mercadoria. “É no rótulo que tem do que é composto o alimento, como é feito”, disse. No caso do chocolate orgânico, o produto teria basicamente três ingredientes: água, açúcar e cacau. Já o chocolate comum, teria uma série de outras substâncias, incluindo saborizantes e aromatizantes.
A economia familiar do campo e “bolso” do consumidor
O cuidado com a produção e o cultivo em pequena escala acabam deixando o produto final mais caro que o convencional. Segundo explicou Josivaldo Dias, a produção e a demanda em pequena escala, o maior tempo necessário, os custos de transporte e a falta de estudos científicos que ajudem o agricultor diminua os próprios custos e consiga precificar o seu produto levaria os orgânicos a terem preços mais elevados.
De acordo com ele, a melhor forma de mudar esse quadro seria mais informação para o agricultor. “O principal que torna o preço é mais caro é por falta de informação, sobretudo quanto a como precificar”, disse. De acordo com o gerente comercial da Unicafes Bahia, o produto convencional já tem, há muito tempo, estudos e orientações com métricas, cálculos, métodos e classificação. No entanto, tudo ainda seria muito novo no que se refere aos orgânicos e faltam estudos específicos na própria academia.
Para encontrar artigos orgânicos mais em conta, uma saída é buscar diretamente as feira especializadas e os pontos de venda de cooperados da agricultura familiar. Em Salvador, a Unicafes tem pontos de venda em locais como o “Ceasinha” do Rio Vermelho, Shopping Barra e o centro de distribuição da organização em Itapuã.
Apesar de o valor final do produto ainda poder ser um gargalo, o especialista em sociobioeconomia destaca a importância de consumir produtos cultivados pela agricultura familiar e fortalecer esse setor. Ele lembrou a importância que esse segmento da economia tem na conservação do meio ambiente, no fornecimento de produtos saudáveis, no desenvolvimento econômico em suas regiões e na manutenção das famílias no campo, evitando mais inchaço nas grandes cidades. “É bom para todo mundo”, resumiu.




