como nasceu o A TARDE Online há 30 anos

PODP BAHIA
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Quando a internet ainda era um território desconhecido para a maioria dos brasileiros, o Grupo A TARDE já experimentava os primeiros passos no ambiente digital. Em 18 de junho de 1996, há exatos 30 anos, começava o primeiro teste que daria origem ao A TARDE Online, hoje, portal A TARDE, iniciativa pioneira que transformaria a forma de produzir e consumir notícias na Bahia.

Naquele período, a internet comercial brasileira ainda engatinhava. As conexões eram lentas, feitas por linhas telefônicas e modems barulhentos, enquanto navegadores como o Netscape dominavam os computadores de quem começava a explorar a chamada “rede mundial”. Foi nesse cenário que A TARDE decidiu olhar para o futuro.

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Poucos dias após o início dos testes, em 11 de julho de 1996, o acesso ao site foi liberado ao público. Hospedado nos servidores da extinta Telebahia e acessado pelo endereço www.atarde.com.br, o portal reunia conteúdos jornalísticos, serviços e recursos que, para a época, pareciam avançados.

Era possível consultar indicadores financeiros, acessar dicionários, buscar endereços eletrônicos e acompanhar informações internacionais em uma época em que o Google sequer existia.

Imagem ilustrativa da imagem Fax, HTML e modem: como nasceu o A TARDE Online há 30 anos
Foto: Arquivo Pessoal

Enquanto a internet dava seus primeiros passos no Brasil, a equipe responsável pelo novo projeto também aprendia a construir um jornal para um ambiente que não possuía regras estabelecidas.

A redação do A TARDE era um grande salão que tinha várias mesas com máquinas de escrever. Quando entrei, em 1996, fazia a reportagem para a Geral e para o Caderno 2 no impresso… Quando resolveram montar a primeira equipe, me chamaram”, lembra a jornalista Tatiana Lima, que integrou a primeira geração do portal e mais tarde se tornaria editora de conteúdo do A TARDE Online.

A experiência ilustra um dos traços que marcariam o início do jornalismo digital: quase ninguém sabia exatamente como fazer aquilo. As funções ainda estavam sendo criadas. Jornalistas, programadores e designers trabalhavam lado a lado tentando descobrir como transformar a internet em um espaço de informação.

Segundo Tatiana, o grupo reunia jornalistas, técnicos e estagiários em uma estrutura reduzida, mas com espírito pioneiro. “Era um cara com uma visão sempre à frente”, diz sobre o jornalista Marcos Venâncio, o principal líder da equipe.

Quando a internet também era um serviço

A aposta do A TARDE no ambiente digital não se limitou à produção de conteúdo. Em outubro de 1997, no aniversário de 85 anos do jornal, foi assinada uma carta de intenções com a Telebahia para transformar o veículo em provedor de acesso.

Lançado oficialmente em abril de 1998, o provedor A TARDE Online trouxe para a Bahia a conexão via modems no padrão internacional V.90 de 56 kbps.

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Foto: Arquivo Pessoal

A estrutura tecnológica impressionava para os padrões da época. O serviço contava com link de fibra óptica de 1 megabit por segundo, 120 linhas digitais, servidores Compaq de alto desempenho e gerador próprio para garantir funcionamento ininterrupto.

O retorno do público foi imediato. Em março de 1998, uma pesquisa da revista Seleções (Reader’s Digest) apontou o portal como a oitava página mais popular da internet brasileira e a primeira entre os jornais do país.

Em novembro do mesmo ano, o serviço atingiu 1 milhão de acessos. Os planos de internet ilimitada custavam R$ 25 para assinantes do impresso e R$ 26,50 para os demais usuários.

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Foto: Arquivo Pessoal

Um dos sites mais populares do país

Ao mesmo tempo, a equipe buscava compreender quais seriam as possibilidades de uma mídia que ainda estava sendo inventada.

Foram criadas áreas temáticas, serviços e conteúdos exclusivos. O público podia fazer testes com o Vestibular Simulado, acessar guias culturais e acompanhar seções como Teatro On Line e Cinema On Line (hoje Cineinsite).

Em 1999, uma reformulação visual e editorial, associada a uma parceria com a StarMedia, ampliou o alcance do projeto e consolidou sua presença entre os grandes portais brasileiros.

Em abril de 2000, outra inovação foi lançada: o Populares On Line. Pela primeira vez, anunciantes podiam publicar e pagar classificados diretamente pela internet, a qualquer hora do dia. O portal também oferecia facilidades pioneiras, como o pagamento da assinatura do jornal por débito automático na conta de energia elétrica.

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Foto: Arquivo Pessoal

O Cineinsite e a internet feita à mão

Quando a jornalista e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Ludmilla Carvalho, entrou para a equipe em 2001, a produção de conteúdo para a internet ainda estava longe da simplicidade atual. Publicar uma matéria não significava apertar um botão.

“As páginas todas eram feitas por web designer. Só eles sabiam programação, era tudo linguagem HTML. A gente que era jornalista, escrevia o texto, mandava para o designer e ele colocava na página porque não existia essa facilidade que a gente tem hoje de publicar automaticamente instantaneamente”, relata.

O Cineinsite em 21 de maio de 2005
O Cineinsite em 21 de maio de 2005 – Foto: Arquivo Pessoal

A rotina do Cineinsite, espaço dedicado ao cinema e ao entretenimento, ajuda a retratar esse momento.

Os cinemas mandavam os horários por fax, eu ficava na beira do fax esperando receber. Pegava essas informações, o designer arrumava no layout do site e a gente colocava filme por filme, cinema por cinema, horário por horário, tudo à mão

Ludmilla Oliveira

Inspirado em revistas especializadas da época, o espaço passou a publicar críticas de filmes, entrevistas, cobertura cultural e conteúdos inéditos produzidos exclusivamente para a internet.

“O site do Cineinsite era uma página em branco, literalmente. A gente começou a preencher. Fizemos uma coisa um pouco inspirada na Revista SET, que era a revista de cinema física que existia na época. Ficava uma matéria principal, os horários de cinema e depois comecei a publicar críticas de filmes”, lembra.

A experiência ajudou a consolidar conteúdos originais voltados especificamente para a internet, algo raro naquele momento.

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Foto: Arquivo Pessoal

O portal também investiu em formatos inovadores para a época. Entre eles estavam chats com celebridades, cobertura de eventos culturais e a revista digital ZiGNOW, considerada por muitos uma precursora da lógica das redes sociais.

“ZiGNOW era uma gíria da época, ‘dar um ZIG’… Nesse site, tinha jornalista e fotógrafo que iam para festas, tiravam fotos das pessoas e publicavam no site. Foi um precursor dessa coisa de a pessoa querer ver sua foto na internet”, completa.

O aquário no centro da redação

No início dos anos 2000, a equipe do portal passou a ocupar um espaço que se tornaria quase lendário para quem viveu aquele período. Era uma sala de vidro localizada no centro da redação.

“Entrei para o A Tarde Online quando ficava em uma sala de vidro no centro da redação. Diziam que estávamos ‘no aquário'”, recorda a jornalista Ana Claudia Cavalcante, que começou como estagiária em 2001 e posteriormente foi contratada pela empresa.

Naquele momento, o jornal impresso ainda concentrava a maior parte da atenção dos leitores e anunciantes. “Na época, a repercussão de uma matéria no jornal impresso era muito grande. O Jornal A TARDE impresso era lido em todas as casas, empresas, lojas, salões de beleza, consultórios de médico e dentista do estado da Bahia.”

Por isso, segundo Ana Cláudia, o portal funcionava também como um laboratório de linguagens e formatos. O espaço simbolizava a convivência entre duas gerações do jornalismo: a do papel e a da tela.

Os estagiários pareciam estar mais abertos ao jornalismo digital. Vivemos cotidianamente o desafio desta fase de transição. Fizemos história

Ana Cláudia

“Tinhamos muita liberdade no A Tarde Online para escolher as pautas, particularmente no caso das pautas relacionadas a Arte, Cultura e Entretenimento. E o Caderno 2 do impresso recebia muitas matérias produzidas no Online”, pontua Ana.

A redação diante de uma nova era

O desafio não era apenas tecnológico. Era preciso convencer profissionais acostumados ao impresso de que a internet não representava uma ameaça ao jornal, mas uma nova forma de fazer jornalismo.

“A TARDE entrou com uma equipe bem pequena, com muita resistência da redação do impresso e de setores da própria diretoria do jornal. Mas foi um momento de desbravar mesmo, a gente também informava muita pauta, muita coisa que virava pauta para o impresso”, afirma Tatiana.

A relação entre as equipes exigia equilíbrio constante. Enquanto o impresso continuava sendo o principal produto da empresa, o portal precisava atualizar informações ao longo do dia.

“A gente tinha uma política de cobertura própria dos fatos, mas era inevitável antecipar um pouco notícias que estariam no jornal impresso no dia seguinte […] O online sempre trazia boas pautas para a reportagem e fazia parte da apuração”, diz Tatiana.

Aos poucos, a convivência passou a gerar benefícios para os dois lados. A integração entre as equipes se fortaleceria especialmente em momentos de grande cobertura.

Quando a Bahia virou notícia para o Brasil

Um dos capítulos mais marcantes da história do portal aconteceu durante a greve da Polícia Militar da Bahia, em 2001. Naquele período, segundo Tatiana, o portal consolidou uma vocação pensada desde sua criação: não apenas publicar notícias para seus leitores, mas também abastecer outros veículos de comunicação com informações produzidas pela própria redação.

“O portal já nasce com a ideia de ser também uma agência de notícias. Era possível também vender, para os outros veículos, fotos e textos”, explica a jornalista.

Jornal A Tarde, 06 jul.2001, p.L3
Jornal A Tarde, 06 jul.2001, p.L3 – Foto: Arquivo Pessoal

A cobertura da paralisação deu dimensão prática a esse projeto. Enquanto parte da imprensa baiana reduzia ou deixava de noticiar os acontecimentos, a equipe A TARDE Online manteve a atualização constante dos fatos, se tornando referência para veículos de todo o país.

“Toda a imprensa baiana estava muito ligada a um grupo político que governava na época e que não noticiava essa greve. E nós estávamos fazendo um trabalho num momento independente. Teve um boom nesse momento de demanda, a gente era reproduzido e replicado em todos os jornalões do país, Folha, Estadão, O Globo. Foi um momento bem interessante, porque a gente conseguiu furar um bloqueio”, detalha Tatiana.

Segundo a jornalista, foi a primeira vez que o potencial do portal como produtor de informação em tempo real ficou evidente para além da Bahia.

A gente virou fonte. Foi um momento em que o jornalismo do A TARDE informou o país inteiro sobre essa greve da Polícia Militar. Foi um marco histórico

Tatiana Lima

Assembleia de finalização do ciclo de protestos - Jornal A Tarde, 19 jul. de 2001, p.L3.
Assembleia de finalização do ciclo de protestos – Jornal A Tarde, 19 jul. de 2001, p.L3. – Foto: Arquivo Pessoal

A operação funcionava em ritmo contínuo. Sem aplicativos de mensagens ou smartphones, a redação recebia as atualizações das equipes espalhadas pelas ruas por meio do sistema de rádioinstalado nos carros de reportagem.

“Me lembro que eu ficava com um aparelho de rádio do lado do computador que eu estava trabalhando. Os repórteres na rua diziam ‘olha, tá tendo um bloqueio aqui na rua’ e a gente publicava de imediato […] Noticiava em tempo real os fatos relacionados à greve”, relata a profissional.

O nascimento do portal moderno

Em 1º de agosto de 2000, A TARDE deu mais um passo decisivo com o lançamento de um novo portal, já estruturado para operar com notícias em tempo real.

A mudança refletia uma transformação que estava acontecendo em toda a internet brasileira. Os portais deixavam de ser apenas vitrines digitais para se tornarem ambientes de atualização contínua.

Naquele momento, o A TARDE Online registrava mais de 4 milhões de acessos diários e consolidava sua posição entre os maiores portais de informação do país. O público buscava principalmente aquilo que os grandes portais nacionais não conseguiam entregar com a mesma proximidade: informação local.

“O portal era bastante acessado, principalmente as últimas notícias, que era novidade […] Com notícias locais, a gente tinha muito mais acesso. O que as pessoas procuravam muito no A TARDE Online era uma cobertura local, online, coberturas de BA-VI”, detalha Tatiana.

Segundas-feiras eram marcadas pelo interesse em esportes e polícia. Nas sextas, os leitores migravam para a agenda cultural e para os conteúdos de entretenimento.

Trinta anos depois daquele primeiro teste realizado em junho de 1996, a internet já não faz o som dos modems, os horários de cinema não chegam mais por fax e os jornalistas não dependem de programadores para publicar uma notícia.

Mas a essência permanece. A mesma busca por informar rapidamente, experimentar novas linguagens e conectar os leitores aos acontecimentos de seu tempo continua presente na trajetória do portal A TARDE.





Fonte:A Tarde

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