Trump repete táticas de Hitler e do nazismo na Copa

PODP BAHIA
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Estudando o passado, é fácil entender quais acontecimentos ficam marcados na história da humanidade. Quando o mundo ainda está passando por eles, no entanto, alguns pesos passam despercebidos entre os dias comuns que juntam acontecimentos que, um dia, serão estudados pela história – e a Copa do Mundo de 2026 está cheia deles.

Mesmo antes da abertura e do primeiro jogo na quinta-feira, 11, a política internacional já colocou a Copa em um panorama de guerras, países e conflitos que dificilmente será esquecido no futuro.

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Principal país-sede da edição, ao lado de México e Canadá, os Estados Unidos chegam ao Mundial sob o governo de Donald Trump e em meio a uma série de decisões migratórias, diplomáticas e de segurança que atingiram delegações, torcedores, profissionais de imprensa e até membros da arbitragem.

Desde o anúncio, o papel dos EUA como anfitriões já vem sendo questionado antes mesmo da abertura. Driblando a regra de que países em guerra não podem sediar Copas do Mundo, já que não há guerra acontecendo em território estadunidense, é justamente esse o principal país de 2026, detentor de diversos poderes que restringe o simples acesso de outros à Copa.

Restrições à delegação do Irã, revogação de ingressos destinados a torcedores iranianos, interrogatório de um dos principais jogadores do Iraque, deportação de um fotógrafo da seleção iraquiana e veto à entrada de um árbitro somali escalado pela Fifa para o torneio são apenas exemplos de acontecimentos que colocaram o país no centro de uma tensão entre duas lógicas – a da Copa como festa global e a da fronteira como instrumento de controle político.

A Fifa apresenta a edição de 2026 como a maior e mais internacional da história, com 48 seleções, três países-sede e um discurso de integração entre povos, culturas e torcedores. O cenário nos Estados Unidos, no entanto, expõe uma contradição clara.

O mesmo país que recebe a competição que supostamente une o mundo, adota medidas que restringem a circulação de representantes de determinadas nações, muitas delas marcadas por conflitos geopolíticos, políticas de veto migratório ou relações tensas com Washington.

Donald Trump com a taça da Copa do Mundo
Donald Trump com a taça da Copa do Mundo – Foto: Reprodução I X

Não é, claro, a primeira vez em que isso acontece na história. Na antiguidade, regimes inclusive totalitários já foram palco de grandes encontros esportivos, como a Alemanha nazista nas Olimpíadas de 1936 e a Itália fascista na Copa do Mundo de 1934. As decisões desses países, no entanto, podem surpreender.

Os Estados Unidos não são, obviamente, equivalentes à Alemanha nazista ou à Itália fascista, regimes que marcaram a história da humanidade pela violência, perseguição sistemática, política de extermínio, genocídio e totalitarismo que os caracterizavam.

No entanto, na Copa de 2026, muitas de suas decisões tem sido tão severas quanto as tomadas naquela época – ou até mais. Desde sempre, grandes eventos esportivos frequentemente funcionam como vitrine de poder. Governos usam Copas, Olimpíadas e torneios globais para projetar imagem, reforçar narrativas internas, controlar acessos, transformar rivalidades diplomáticas em gesto político e disputar prestígio internacional.

Taça da Copa do Mundo
Taça da Copa do Mundo – Foto: FIFA

Foi assim na Copa do Mundo de 1934, sediada pela Itália de Benito Mussolini, e nos Jogos Olímpicos de 1936, realizados em Berlim sob o regime de Adolf Hitler. E, assim como naquela época, o esporte hoje é utilizado como palco de propaganda, exclusão e controle.

O historiador Murillo Mello ressalta que os contextos não devem ser confundidos. Para ele, os anos 1930 estavam marcados por uma conjuntura própria, com regimes totalitários em ascensão, crise econômica profunda e uma personalização extrema do poder político.

“O contexto dos anos 30 é bem diferente do de hoje. Nos anos 1930 há uma efervescência de regimes totalitários, a gente está saindo da crise de 1929 e vendo a imersão de regimes”, explica.

Crise de 1929
Crise de 1929 – Foto: Reprodução I Instagram

“A personificação é muito maior nesses regimes, não se compara ao regime atual, não há tanto um paralelo entre Trump e o populismo que os outros ditadores vão fazer. (…) Trump não chega a ser tão populista quanto esses regimes. Ele por si só, por ser uma figura que tem essa personalidade, desperta esses flashes”, analisa.

Ainda assim, os episódios recentes mostram como a organização de um Mundial pode deixar de ser apenas uma questão esportiva e passar a refletir disputas políticas do país-sede, como os Estados Unidos já vêm mostrando desde antes do início de tudo.

Estados Unidos sob e sobre tensão

Às vésperas da abertura da Copa do Mundo, uma sequência de decisões envolvendo autoridades americanas gerou desconforto internacional e levantou dúvidas sobre a capacidade de o país garantir condições equilibradas de participação a todos os agentes credenciados para o torneio.

Entre os episódios mais controversos estão a seleção do Irã autorizada a entrar nos Estados Unidos apenas temporariamente, sem permissão para pernoitar no país, a denúncia da Federação Iraniana de Futebol de que a cota de ingressos de torcedores iranianos foi retirada, a negativa de visto a Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol, o interrogatório de sete horas com Aymen Hussein, principal atacante do Iraque e herói da classificação do país, a detenção por 13 horas e deportação de Talal Salah, fotógrafo da seleção iraquiana, e o veto à entrada do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, retirado da Copa após ser barrado em Miami.

Separadamente, cada caso pode ser explicado por critérios migratórios, diplomáticos ou de segurança. Em conjunto, no entanto, eles criam a imagem política de uma Copa global atravessada pelas restrições de um país-sede que, sob Trump, transformou fronteiras e vetos de viagem em marca de governo.

Fronteiras ao Irã

O caso mais emblemático envolve o Irã. A seleção iraniana recebeu autorização para entrar nos Estados Unidos para treinos e partidas, mas, segundo o embaixador iraniano no México, os vistos concedidos aos 26 jogadores permitem apenas entradas temporárias, proibindo a delegação de dormir em território americano.

Com isso, o Irã ficará concentrado em Tijuana, no México, e terá que retornar à cidade após cada jogo ou atividade realizada nos Estados Unidos. A logística original previa hospedagem em Tucson, no Arizona, já que os três primeiros compromissos da equipe serão em solo americano.

Seleção Iraniana
Seleção Iraniana – Foto: FIFA

O planejamento foi alterado em meio ao agravamento das tensões entre Irã e Estados Unidos, após bombardeios coordenados por forças americanas e israelenses contra o território iraniano.

Em uma Copa do Mundo, no entanto, a preparação não se resume aos 90 minutos de jogo. Entre uma partida e outra, seleções precisam controlar desgaste, alimentação, adaptação climática, deslocamentos e rotina de treinos.

O Irã está classificado para a Copa e seus jogadores foram autorizados a competir, mas não terão permissão para viver a rotina normal de uma delegação no território onde jogarão. A presença existe, mas é condicionada, vigiada e limitada – justamente como, desde antes, os Estados Unidos já sinalizavam.

Nem jogadores, nem torcida

Muito além das limitações impostas à equipe iraniana, a Federação de Futebol do Irã afirmou que sua cota de ingressos para a Copa do Mundo foi retirada pelos Estados Unidos poucos dias antes da abertura. Segundo a entidade, muitos torcedores já haviam feito planos de viagem confiando no processo oficialmente anunciado.

A cota de 8% dos ingressos destinada aos torcedores iranianos teria sido recolhida, deixando a federação impossibilitada de distribuir entradas para os jogos da própria seleção.

Torcida do Irã
Torcida do Irã – Foto: Reprodução I X

A decisão, se mantida, afeta diretamente o direito de torcedores acompanharem sua seleção no maior torneio do mundo, ampliando a percepção de que o conflito político entre governos transbordou para a experiência de cidadãos comuns, que não participam das decisões diplomáticas, mas acabam atingidos por elas.

Presidente da Federação Iraniana teve visto negado

Jogadores, torcedores e, claro, presidente – o dirigente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, não poderão acompanhar os compromissos da seleção nos Estados Unidos.

Taj integrou a Guarda Revolucionária do Irã, força militar criada após a Revolução Islâmica de 1979 e classificada como organização terrorista pelos governos dos Estados Unidos e do Canadá. O dirigente já havia enfrentado situação semelhante no mês anterior, quando ficou fora do Congresso da Fifa realizado em Vancouver.

Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol
Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol – Foto: Federação Iraniana de Futebol

Diferentemente das restrições impostas a jogadores e torcedores, a negativa a Taj é apresentada a partir de um histórico individual relacionado a uma instituição enquadrada como ameaça por governos norte-americano e canadense.

Ainda assim, dentro do conjunto de decisões que atingiram o Irã, o episódio reforça o quanto a seleção chega ao Mundial cercada por limitações impostas, que diferenciam sua experiência de qualquer outra na Copa.

Sete horas de interrogatório

Apesar de concentrar as atenções, no entanto, o Irã não é o único afetado. A seleção do Iraque também enfrentou problemas na chegada aos Estados Unidos, quando o atacante Aymen Hussein, um dos principais nomes do time, foi interrogado durante sete horas no aeroporto de Chicago, onde a delegação faria preparação para a Copa.

Segundo a agência iraquiana Shafaq News, Hussein foi detido por autoridades de imigração, submetido a procedimentos de investigação e verificação, e só depois liberado. Aos 30 anos, o atacante joga no Al-Karma, do Iraque, e virou herói nacional ao marcar o gol que classificou a seleção para uma Copa do Mundo após 40 anos na vitória por 2 a 1 sobre a Bolívia, durante a repescagem intercontinental.

Aymen Hussein, ídolo do Iraque
Aymen Hussein, ídolo do Iraque – Foto: FIFA

Muito além de craque, Hussein é um ídolo do país, tendo tido a vida marcada pela violência extremista. O pai dele, militar, foi morto pela Al Qaeda em 2008. Seis anos depois, o irmão do atleta foi sequestrado pelo Estado Islâmico e nunca mais foi encontrado.

Um jogador cuja família foi vítima direta da violência terrorista, indo jogar, acabou submetido a um longo interrogatório ao chegar ao país-sede da Copa.

Fotógrafo iraquiano detido e deportado

Nas situações, classe alguma se salva. Junto a presidente, jogadores, federação e torcida, está até mesmo um fotógrafo. Talal Salah, apontado como fotógrafo oficial da seleção do Iraque, foi impedido de entrar nos Estados Unidos e deportado para Bagdá.

De acordo com a Shafaq News, Salah ficou detido por 13 horas ao desembarcar nos Estados Unidos. Depois, teve a entrada negada e foi enviado de volta à capital iraquiana.

Talal Salah, fotógrafo oficial da seleção do Iraque
Talal Salah, fotógrafo oficial da seleção do Iraque – Foto: Reprodução I X

Por causa da deportação, não houve registro no perfil oficial do Iraque da chegada da equipe para a disputa da Copa, sendo a última publicação relacionada ao Mundial no Instagram da seleção composta por fotos do embarque da delegação rumo aos Estados Unidos – a federação iraquiana não pôde, assim, narrar sua própria participação no torneio.

Árbitro impedido de fazer história pelo seu país

O caso de maior repercussão internacional, no entanto, foi o de Omar Abdulkadir Artan, árbitro somali de 34 anos. Entre os 52 juízes selecionados para trabalhar na Copa do Mundo de 2026, seria ele o primeiro árbitro da Somália a atuar em uma edição do torneio na história.

Artan é considerado um dos principais nomes da arbitragem africana. Integra o quadro da Fifa desde 2018, apitou a final da Champions League Africana de 2025 entre Pyramids FC e Mamelodi Sundowns, e foi eleito o melhor árbitro masculino da África pela Confederação Africana de Futebol no mesmo ano.

Mesmo com esse currículo, foi barrado no Aeroporto Internacional de Miami. Segundo o Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos, a negativa ocorreu por “questões de verificação”, sem detalhamento inicial.

Omar Abdulkadir Artan, árbitro somali
Omar Abdulkadir Artan, árbitro somali – Foto: Reprodução I Instagram

De acordo com a Embaixada da Somália no Quênia, responsável pelo processamento do visto, Artan havia recebido autorização para viajar aos EUA na semana anterior.

A BBC informou que o árbitro possuía passaporte diplomático e visto americano de entrada única. Artan relatou ao New York Times ter sido entrevistado pela imigração por 11 horas e ficado detido por várias horas antes de embarcar em um voo de volta para Istambul, na Turquia.

A Fifa confirmou que ele não poderia mais atuar no Mundial, afirmando que Artan não teria condições de treinar nem trabalhar na Copa após ter a entrada negada nos Estados Unidos.

Omar Abdulkadir Artan sendo recebido na Somália
Omar Abdulkadir Artan sendo recebido na Somália – Foto: Reprodução I Instagram

Além disso, a entidade declarou que não se envolve nos processos migratórios dos países-sede, incluindo concessões de vistos, e que foi informada pelas autoridades de que a situação do árbitro não seria alterada.

A impossibilidade de aproveitá-lo apenas em jogos no Canadá ou no México tem, além de tudo, uma explicação operacional. Todos os árbitros selecionados precisam passar por treinamento, preparação e procedimentos de segurança na Flórida. Como Artan não pôde entrar nos Estados Unidos, acabou retirado de toda a competição.

Herói de volta à Somália

Ao retornar a Mogadíscio, capital da Somália, Artan foi recebido como herói no Aeroporto Internacional Aden Abdulle Osman. Centenas de pessoas compareceram ao local, incluindo autoridades, representantes da Federação Somali de Futebol, árbitros, celebridades e moradores.

“Prometo a vocês, se Deus quiser, que estarei presente na próxima edição. Quero que o público somali se conforte com isso e mantenha a confiança”, disse Artan.

“A Fifa me apoiou e esteve em contato comigo até eu chegar em Mogadíscio. Prometo que vou apitar na próxima Copa do Mundo. Somália, em todos os lugares, eu estou te avisando”, completou.

Omar Abdulkadir Artan sendo recebido na Somália
Omar Abdulkadir Artan sendo recebido na Somália – Foto: Reprodução I Instagram

Suspeita de terrorismo

Inicialmente, a ausência de justificativa detalhada para o veto a Artan alimentou críticas à decisão americana. Depois, um representante do governo Trump afirmou à Fox News que o árbitro estaria sendo investigado por suposto envolvimento com terrorismo.

Segundo comunicado divulgado pela administração americana, uma análise mais aprofundada do órgão de Proteção de Alfândega e Fronteiras teria encontrado “informações comprometedoras, incluindo vínculos com suspeitos de pertencerem a organizações terroristas”, o que tornaria o viajante inadmissível nos Estados Unidos de acordo com a Lei de Imigração e Nacionalidade.

O mesmo comunicado afirmou que Artan recebeu formulários de imigração informando a base legal usada para sua remoção expedita. A administração Trump declarou ainda que não permitiria que qualquer ameaça à segurança entrasse no país.

Omar Abdulkadir Artan
Omar Abdulkadir Artan – Foto: FIFA

O árbitro, por outro lado, disse que as autoridades não lhe deram justificativa no momento da recusa. Assim, de um lado, o governo americano invoca segurança nacional, enquanto de outro, autoridades somalis e representantes do futebol africano apontam falta de transparência e dano esportivo irreversível a um árbitro selecionado por mérito.

Ciise Aden Abshir, assessor do Ministério da Juventude e Esportes da Somália e ex-capitão da seleção do país, afirmou que negar a entrada de Artan “prejudica não apenas a ele pessoalmente, mas também mina o compromisso do futebol com a equidade, o mérito e o espírito de fair play”.

Somália na mira

O caso Artan também se insere em um contexto político mais amplo. A Somália está entre os países atingidos por restrições de viagem impostas pelo governo Trump. Em junho de 2025, o presidente determinou proibição total de entrada, sob qualquer categoria de visto, para 12 países, incluindo a Somália.

Dois dias antes do sorteio da Copa do Mundo, em dezembro de 2025, Trump voltou a chamar atenção por comentários ofensivos sobre o país, feitos em meio a uma operação planejada de fiscalização migratória em Minnesota, estado que possui uma grande comunidade somali.

“Com a Somália, que mal é um país, você sabe, eles não têm nada. Eles apenas ficam andando por aí matando uns aos outros. Não há estrutura”, disse.

A Olimpíada usada como propaganda nazista

Os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, são um dos exemplos mais extremos e conhecidos do uso político de um grande evento esportivo. A Alemanha recebeu a competição sob o comando de Adolf Hitler, em um momento em que o regime nazista já perseguia judeus, ciganos, opositores políticos, pessoas com deficiência, homens considerados homossexuais e outros grupos tratados como inimigos ou “inferiores”.

Durante duas semanas de agosto, a ditadura nazista tentou esconder seu caráter racista, militarista e repressivo para apresentar ao mundo a imagem de uma Alemanha moderna, pacífica e organizada.

O regime removeu temporariamente placas antissemitas de espaços públicos, preparou a cidade para impressionar visitantes estrangeiros e transformou a estética olímpica em ferramenta de propaganda.

Olimpíadas de 1936
Olimpíadas de 1936 – Foto: Reprodução I X

Berlim havia sido escolhida como sede em 1931, antes da chegada de Hitler ao poder. Em 1933, o líder nazista tornou-se chanceler da Alemanha. A partir daí, cresceram movimentos de boicote em países como Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Suécia, Tchecoslováquia e Holanda.

Atletas judeus de diversos países decidiram boicotar os Jogos, mas mesmo assim, em dezembro de 1935, após o Sindicato dos Atletas Amadores dos Estados Unidos decidir pela participação, outros países seguiram a mesma posição, e os boicotes mais amplos perderam força.

Manifestações antinazistas
Manifestações antinazistas – Foto: Reprodução I X

Murillo Mello lembra que as restrições atingiram atletas por motivos ideológicos e raciais: “Em 1936 houve, para evitar algum conflito ideológico com o Nazismo, os Estados Unidos, de última hora, barraram alguns atletas, principalmente de atletismo. A Alemanha também barrou atletas de origem judia, ciganos”.

Na época, a União Soviética também boicotou as Olimpíadas, e a equipe alemã foi a maior da competição, com 348 atletas. Os Estados Unidos enviaram 312 membros, incluindo 18 atletas afro-americanos. No total, 49 delegações participaram, número maior do que em qualquer edição olímpica anterior.

Normalidade nazista

A propaganda do regime foi, como em quase todo o nazismo, cuidadosamente construída. Berlim foi decorada com bandeiras olímpicas e suásticas, o governo preparou um complexo esportivo grandioso, e a cerimônia incluiu o ritual da tocha olímpica, levada em revezamento desde Olímpia, na Grécia, em uma tentativa de criar uma ligação simbólica entre a Alemanha nazista e a Antiguidade clássica.

Essa narrativa servia ao mito racista de que a Alemanha seria herdeira de uma suposta civilização “ariana” superior. A manipulação das imagens continuou depois dos Jogos, com o documentário “Olympia”, dirigido por Leni Riefenstahl, cineasta ligada à propaganda do regime que ajudou a eternizar a estética monumental dos Jogos de Berlim e a associar desempenho atlético à narrativa de força nacional que Hitler pretendia projetar.

A Alemanha terminou no topo do quadro de medalhas, com 101 pódios, sendo 38 de ouro, enquanto os Estados Unidos ficaram em segundo lugar, com 24 medalhas douradas. Para o regime nazista, o desempenho esportivo serviu como instrumento de afirmação política.

Pódio das Olimpíadas de 1936
Pódio das Olimpíadas de 1936 – Foto: Reprodução I X

Ao mesmo tempo, a Olimpíada também produziu uma derrota simbólica para a ideologia racista de Hitler. Jesse Owens, atleta negro norte-americano, conquistou quatro medalhas de ouro e se tornou o grande nome das Olimpíadas, contrariando diretamente a lógica de superioridade racial que o nazismo tentava promover.

Ainda assim, o brilho esportivo não impediu a retomada da perseguição. Dois dias depois do encerramento da Olimpíada, Wolfgang Fürstner, chefe da Vila Olímpica, suicidou-se ao saber que havia sido demitido do serviço militar por ter origem judaica, e as perseguições continuaram.

Boicotes pelo antifascismo

Na época, houveram tentativas concretas de criar alternativas às Olimpíadas nazistas. A principal delas foi a Olimpíada Popular de Barcelona, planejada para julho de 1936 como resposta antifascista aos Jogos oficiais da Alemanha nazista.

Murillo Mello lembra que a Espanha tentou organizar seus próprios jogos após decidir boicotar o evento em Berlim, mas a iniciativa foi engolida pelo avanço da Guerra Civil Espanhola.

“Os atletas de origem judia vão se recusar, vão boicotar. Alguns são barrados, outros vão boicotar, que é o caso de alguns dos nadadores negros. A Espanha vai boicotar e tentar fazer seus próprios jogos, mas não vai acontecer porque meses depois tem a guerra civil espanhola. A União Soviética também vai boicotar”, pontuou.

Olimpíada Popular de Barcelona
Olimpíada Popular de Barcelona – Foto: Reprodução I X

A Olimpíada Popular surgiu do movimento global de boicote à competição na Alemanha e prometia ser uma alternativa antifascista, com a ideia de reunir atletas e torcedores contrários ao avanço do fascismo na Europa.

A proposta envolvia representantes de 21 países e pretendia ser diferente dos Jogos de Berlim. Durante a cerimônia, judeus exilados da Europa e povos colonizados do Norte da África entrariam no estádio com equipes representando Estados-nação e também nações sem Estado. Já a trilha teria uma canção composta por um judeu alemão exilado, com letra de um poeta catalão.

Olimpíada Popular de Barcelona
Olimpíada Popular de Barcelona – Foto: Reprodução I X

O primeiro evento atlético seria o revezamento 10x100m, uma prova pensada para valorizar a aptidão coletiva dos trabalhadores, em vez de exaltar apenas o talento individual.

Além disso, as mulheres também teriam mais espaço para competir do que nos Jogos oficiais organizados pelo Comitê Olímpico Internacional em Berlim, com o Clube Desportivo Feminista Catalão entre os organizadores.

Atletas em guerra

Diferentemente dos Jogos oficiais, no entanto, as Olimpíadas Populares não tinham luxo nem grandes estruturas. Atletas seriam hospedados em casas, albergues e no Hotel Olympic, rebatizado para a ocasião, em meio a uma procura inesperada que obrigou autoridades catalãs a buscar mais opções de hospedagem.

Quando o evento foi ampliado de quatro dias para uma semana, cartazes já espalhados pela cidade precisaram ser alterados um a um.

Entre os participantes, estava uma equipe norte-americana formada por velocistas negros do Harlem, ginastas judeus de Manhattan e um boxeador mestiço de Pittsburgh. O treinador era Abraham Alfred “Chick” Chakin, imigrante cuja família havia fugido de pogroms na Rússia.

Abraham Alfred
Abraham Alfred “Chick” Chakin – Foto: Reprodução I X

Eles partiram em 3 de julho de 1936 rumo à Europa, mirando na Espanha, para participar de um evento pensado como demonstração internacional contra o fascismo. A equipe chegou a Barcelona em 15 de julho em meio a boatos de conflito e sinais de golpe de Estado, mas a velocista Dot Tucker, única mulher do grupo, recordaria depois que “não havia medo”.

Na noite anterior à abertura, os atletas foram dormir cedo. Horas depois, o velocista Frank Payton acordou com o som de canhões, metralhadoras, rifles e tropas marchando. Da janela do hotel, os atletas viram homens e mulheres arrancando paralelepípedos das ruas e enchendo sacos de areia para erguer barricadas.

O exército espanhol entrava na cidade para tentar dominar o governo catalão, e a Guerra Civil Espanhola havia começado. Os civis resistiram nas ruas. Socialistas, comunistas, sindicalistas, anarquistas e outros grupos antifascistas se uniram contra o golpe.

Guerra Civil Espanhola
Guerra Civil Espanhola – Foto: Reprodução I X

Mulheres participaram da construção de barricadas e algumas lideraram destacamentos de trabalhadores. Em determinado momento, anarquistas catalães chegaram a convencer soldados a virar a artilharia contra seus próprios comandantes.

Para os atletas estrangeiros, a experiência foi transformadora. Charlie Burley, boxeador de Pittsburgh e campeão nacional, saiu às ruas assim que o tiroteio cessou e pegou uma pá para ajudar a reforçar barricadas. Alemães e italianos exilados também se juntaram à resistência, conscientes de que derrotar o fascismo na Espanha era parte de uma luta maior contra Berlim e Roma.

Em poucas horas, o antifascismo deixou de ser apenas uma ideia esportiva e se tornou combate real. O golpe foi contido em Barcelona naquele momento, mas não haveria Olimpíada Popular, justamente porque a guerra havia tomado o lugar dos jogos.

Guerra Civil Espanhola
Guerra Civil Espanhola – Foto: Reprodução I X

Depois da batalha, equipes marcharam pelas ruas cantando “A Internacional” em diferentes línguas. Um atleta francês foi morto, tornando-se a primeira de mais de 15 mil vítimas internacionais do conflito.

Cerca de 200 atletas que pretendiam competir nas Olimpíadas Populares lutaram ao lado dos republicanos na Guerra Civil Espanhola. A frase atribuída a George Orwell, que também participou do conflito, ajuda a resumir a fronteira tênue entre esporte e política – o esporte seria “guerra sem tiroteio”.

A Copa de Mussolini

Dois anos antes dos Jogos de Berlim, a Copa do Mundo de 1934 já havia mostrado como o futebol podia ser usado por um regime totalitário. A Itália de Benito Mussolini sediou o torneio em meio à consolidação do fascismo, gerando um dos primeiros exemplos da prática.

O futebol costuma ser visto como esporte democrático por causa da simplicidade das regras, do baixo custo para ser praticado e da possibilidade de ser jogado em praticamente qualquer terreno.

Nos anos 1930, porém, Mussolini percebeu seu potencial como instrumento de mobilização nacional. O regime fascista usou a Copa para exaltar a Itália, fortalecer a imagem do “Duce” e transformar estádios em arenas políticas.

Benito Mussolini, líder do regime fascista italiano
Benito Mussolini, líder do regime fascista italiano – Foto: Divulgação | AFP

Ao conseguir sediar a Copa de 1934, o regime italiano investiu em espetáculo e pressão. Há relatos históricos e lendas em torno da competição, como a de que Mussolini teria espalhado sósias pelos estádios para parecer presente em todos os jogos.

Também se comenta que, antes da estreia, ele teria feito ameaça velada aos jogadores, sugerindo que o desempenho da seleção seria “muito bom” sobretudo para a vida dos atletas. Para aliviar a pressão, o técnico teria concentrado a equipe na Suíça.

Além dessas histórias, o torneio ficou cercado por suspeitas de favorecimento, suborno de árbitros e decisões controversas. A semifinal contra a Espanha republicana, adversária política simbólica da Itália fascista, foi marcada por erros grosseiros de arbitragem.

Itália 1 x 1 Espanha
Itália 1 x 1 Espanha – Foto: Reprodução I X

Depois de empate no primeiro jogo, os espanhóis não resistiram ao segundo confronto, vencido pela Itália por 1 a 0. Foi justamente após essa disputa que a seleção espanhola ficou conhecida como “A Fúria”.

Na final, disputada contra a Tchecoslováquia, a Itália venceu por 2 a 1 na prorrogação diante de cerca de 50 mil torcedores, sob o comando do árbitro sueco Ivan Eklind, apontado como admirador político de Mussolini.

Árbitro sueco Ivan Eklind
Árbitro sueco Ivan Eklind – Foto: Reprodução I X

Assim, a seleção italiana conquistou seu primeiro título mundial, e o regime fascista saiu fortalecido pelo triunfo esportivo. Décadas depois, a Tchecoslováquia se tornaria um dos países europeus a adotar o socialismo como forma de governo, o que amplia o peso histórico e político daquele confronto final quando visto em retrospectiva. Mas, em 1934, o sentido imediato era outro – a vitória italiana serviu à propaganda de Mussolini e ajudou a associar o sucesso no futebol à força do fascismo.

A Alemanha nazista também tentou receber a Copa do Mundo de 1942, mas o torneio não foi realizado por causa da Segunda Guerra Mundial.

Alemanha, Itália e Estados Unidos

O ponto de contato entre 1934, 1936 e 2026 não está, claro, na equivalência dos regimes, mas no controle e poder político que pode ser gerado com a recepção de um megaevento.

A Fifa pode vender a Copa como celebração global, mas o país-sede controla aeroportos, vistos, permissões de entrada, permanência, segurança e acesso. Quando esse controle se volta contra representantes de países específicos, o torneio passa a carregar marcas da política externa e migratória do anfitrião.

Todo país-sede mantém prerrogativas de segurança e controle migratório, e mesmo a Alemanha nazista e a Itália fascista permitiram a entrada de outras nações livremente, focando no uso da competição como ferramenta de reafirmação de seus próprios poderes e identidades em outras instâncias.

A reafirmação de um governo gerado nas bases de proibições a migrações e perseguições a imigrantes, no entanto, cria novas barreiras.

A história mostra que esporte e política nunca estiveram completamente separados. A Copa de 1934 serviu ao fascismo italiano. Os Jogos de 1936 foram usados como propaganda nazista. As Olimpíadas Populares de Barcelona tentaram oferecer uma resposta antifascista e foram interrompidas pela Guerra Civil Espanhola. Copas foram usadas por ditaduras, democracias, monarquias e regimes de diferentes naturezas para projetar imagem e poder.

A diferença é que, em alguns momentos, o discurso oficial tenta esconder essa relação, tratando no esporte como neutralidade e união, enquanto decisões políticas moldam quem participa, quem viaja, quem torce e quem é visto.

Em 2026, a Copa será disputada em estádios modernos, com recorde de seleções, mas com árbitro barrado, torcedores sem ingressos, seleção obrigada a cruzar fronteira para dormir, fotógrafo deportado e jogador interrogado por horas.

A Copa de 2026 não repete Berlim 1936 nem Roma 1934. Mas, ao expor o choque entre festa global e controle migratório, mostra que o futebol continua vulnerável às pressões do tempo em que é disputado, e que o tempo vivido atualmente tem tudo para ser historicamente destacado.

Talvez, então, a Copa de 2026 possa vir a ser a que define quem pode entrar, ficar, trabalhar, torcer e ter o direito de participar plenamente da maior e “mais inclusiva” competição esportiva do mundo.





Fonte:A Tarde

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