A indústria da beleza vive uma mudança de paradigma que promete acabar com a era das tentativas e erros na rotina de cuidados faciais. O que antes era guiado apenas pelo reconhecimento visual do tipo de pele como oleosa, seca ou mista, agora encontra na biologia molecular uma aliada de precisão.
Com o avanço dos testes genéticos e da biotecnologia, o DNA dos pacientes podem ser analisados para identificar predisposições específicas, como envelhecimento precoce, sensibilidade, tendência à acne ou hiperpigmentação.
“A diferença não está em resultados mais rápidos, mas em escolhas mais precisas. O skincare convencional trabalha com tipos de pele e funciona bem para a maioria das pessoas, mas não captura a variação biológica individual. A genética permite orientar a escolha de ativos com base no perfil de cada pessoa, inclusive de forma preventiva. O ganho mais imediato é reduzir a tentativa e erro”, explica Luciana Rodrigues, Superintendente de Operações e Negócios em Genômica.
Como a genética pode influenciar nos produtos de beleza?
O processo começa com a coleta de DNA, que pode variar de acordo com o laboratório, e a partir dessa amostra, marcadores genéticos específicos referentes à derme são analisados. Esse exame busca identificar como o organismo processa nutrientes, qual a capacidade antioxidante natural da pele, a tendência à degradação de colágeno e, inclusive, a predisposição a danos causados por radiação ultravioleta ou à formação de manchas.
Assim, dermatologistas conseguem desenhar estratégias mais assertivas, sugerindo ingredientes ativos que atendam às necessidades do paciente, em vez de apenas tratar o sintoma visível.
“Muda o ponto de partida do tratamento. Os protocolos tradicionais são baseados principalmente no que vemos clinicamente, como manchas, rugas, flacidez, oleosidade ou sensibilidade. Já a personalização baseada em DNA busca entender por que aquela pele se comporta daquela forma. Isso importa porque duas pessoas podem apresentar o mesmo sinal visível, mas por mecanismos biológicos diferentes. Posso citar, por exemplo, no melasma, uma paciente pode ter maior tendência à inflamação, outra pode ter maior predisposição à pigmentação, outra pode ter uma resposta mais intensa ao estresse oxidativo. Se todas receberem exatamente o mesmo protocolo, o resultado tende a ser menos previsível”, detalha Maria Eugenia Ayres, farmacêutica e gestora farma da Biotec.
No entanto, os profissionais alertam que fatores ambientais como poluição, alimentação, sono e níveis de estresse têm o poder de “ligar” ou “desligar” a expressão de determinados genes. “Fatores ambientais como exposição solar, alimentação e rotina de cuidados interagem o tempo todo com essas predisposições. O DNA aponta as tendências e o ambiente determina em que medida elas se expressam”, diz Rodrigues.
Assim, a análise genética funciona como um guia fundamental para otimizar o uso de dermocosméticos, mas não substitui a necessidade de manter hábitos saudáveis. O conhecimento genético permite que o indivíduo saiba, por exemplo, que sua pele possui uma defesa antioxidante naturalmente mais baixa, o que justifica a necessidade do uso de vitamina C ou outros protetores específicos.
“Estamos vivendo uma transição da ciência para a prática clínica e cosmética. Isso significa que o skincare está deixando de ser baseado apenas em ativos com ação isolada ou em protocolos padronizados, para se tornar cada vez mais biológico e individualizado. O foco passa a ser entender como a célula funciona, como ela se comunica e como expressa seus genes ao longo do tempo. Na prática, ainda existem desafios, como custo dos testes, acesso à tecnologia e necessidade de interpretação qualificada dos dados. Por isso, a aplicação ainda não é totalmente massificada. Por outro lado, já vemos claramente essa mudança acontecendo”, acrescenta Ayres.




