Uma pessoa LGBTQIAPN+ é vítima de morte violenta no Brasil a cada 34 horas, segundo o relatório anual do Grupo Gay da Bahia (GGB). Apenas em 2025, foram 257. Essa é uma realidade assustadora reforçada pelos dados mais recentes do Atlas da Violência 2026, que revelam a continuidade do crescimento dos registros de violência contra esse público no país.
O levantamento, divulgado na terça-feira, 26, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra aumento das notificações entre diferentes grupos e aponta que os indicadores seguem trajetória de alta ao longo da série histórica analisada.
Homessexuais e bissexuais: mais de 50 mil casos em 10 anos
Os registros contra pessoas homossexuais passaram de 7.043 para 7.378 entre 2023 e 2024, aumento de 4,8%. Já entre pessoas bissexuais, os casos cresceram de 2.675 para 2.872 notificações, alta de 7,4% no período. Somando os dois, foram registrados 10.250 casos de violência em 2024, número 5,5% superior ao observado no ano anterior.
Ao analisar especificamente os dados da última década, é possível observar que o crescimento da violência chegou a 212,7%, com maior intensidade entre bissexuais (781%) do que entre homossexuais (149,9%).
Ao todo, foram registrados 59.790 casos de violência em 10 anos no Brasil.

“Desumanização”
Marcelo Oliveira, professor e pesquisador voluntário do Observatório de Mortes Violentas de LGBT+ do GGB, ressalta, em entrevista ao portal A TARDE, que esses dados estão em total consonância com o que o Observatório de Mortes Violentas de LGBT+ do GGB vem documentando há 46 anos.
Um crescimento de 212,7% na violência contra homossexuais e bissexuais em uma década não é uma anomalia estatística: é o retrato de uma cultura que continua autorizando, silenciosamente, a desumanização dessas pessoas.
Marcelo Oliveira – professor e pesquisador
Transexuais e travestis: mais de 35 mil casos
Um aumento nos casos de violência contra pessoas transexuais e travestis também foi identificado pelo Atlas da Violência 2026. Em 2024, foram contabilizados 5.575 registros de violência contra esse grupo, crescimento de 2,6% na comparação anual.
Houve leve redução de 0,6% entre homens trans: passando de 1.307 casos em 2023 para 1.299, no ano seguinte. Já entre as mulheres trans o crescimento foi de 3,6%, chegando a 3.594 casos em 2024, mais do que o dobro do registrado entre homens trans.
Entre travestis, o crescimento foi de 4,1%, chegando a 682 registros no último ano disponível. Ao longo dos últimos dez anos, foram contabilizados ao menos 35.779 casos de violência contra pessoas trans e travestis no sistema de saúde.

“[Esses casos] confirmam o que os nossos dados já apontam de forma estrutural: essa população, que representa menos de 1% da população geral, concentra uma proporção absolutamente desproporcional da violência”, explicitou Marcelo Oliveira, que também é doutor em Ciências Sociais.
O especialista acrescenta que no levantamento parcial de 2026 feito pelo Grupo Gay da Bahia, de 1º de janeiro a 12 de maio, mulheres trans correspondem a quase 23% das 111 mortes violentas já registradas. “É uma sobrerrepresentação que reflete exclusão do mercado formal de trabalho, marginalização social e ausência histórica de políticas públicas específicas”, enfatiza.
Estamos diante de uma violência sistemática, não episódica. E ela tem raízes bem identificáveis: uma cultura machista e judaico-cristã que nega a naturalidade da homossexualidade e da diversidade de gênero.
Marcelo Oliveira – professor e pesquisador

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Diferentes interpretações
O Atlas pontua que esse cenário pode provocar diferentes interpretações. Os elevados números absolutos registrados sob a categoria “mulher transexual” indicam a exposição dessa população a um volume expressivo de violências.
Por sua vez, o crescimento percentual mais intenso entre travestis pode refletir tanto um aumento real da violência quanto processos de maior visibilidade, reconhecimento identitário ou ampliação das notificações ao longo do tempo.
Padrões de vitimização não são homogêneos
Ainda que o crescimento tenha sido observado em diferentes grupos, o Atlas destaca que os padrões de vitimização não são homogêneos dentro da população LGBTQIAPN+.
O comportamento dos indicadores varia conforme:
- Orientação sexual;
- Identidade de gênero;
- Faixa etária;
- Acesso aos mecanismos de denúncia e atendimento.
Além disso, outro ponto destacado pelo Atlas é que os registros representam apenas os episódios que chegaram ao sistema de saúde. Por isso, os autores alertam que os números não correspondem necessariamente à totalidade das situações de violência vividas pela população LGBTQIAPN+, grupo que historicamente enfrenta barreiras para denúncia e acesso institucional.
A análise de Marcelo Oliveira corrobora com o levantamento. “O número real é, com certeza, maior. O próprio histórico do Observatório do GGB, que ao longo de 46 anos de monitoramento acumula mais de 7 mil mortes violentas de LGBT+ documentadas no Brasil, evidencia a dimensão de uma tragédia que o poder público insiste em não nomear”, lamenta o estudioso, que aproveita para dar destaque ao instrumento existe para enfrentar exatamente esse problema:
O Formulário Rogéria, instituído pela Resolução CNJ nº 582/2024, é um mecanismo destinado a identificar fatores de risco e registrar adequadamente casos de violência contra pessoas LGBT+ nos boletins de ocorrência e processos judiciais.
“O problema é que, mesmo antes da versão mais recente, o formulário vinha sendo utilizado por delegacias de apenas 11 estados, menos da metade do país”, afirma.
Cautela na interpretação
No documento divulgado na terça, os pesquisadores destacam que o aumento das notificações não significa, necessariamente, que a violência tenha crescido na mesma proporção.
O relatório diz que fatores como ampliação da cobertura dos sistemas de informação, fortalecimento da rede de atendimento e aumento do número de pessoas que passaram a se identificar como integrantes da população LGBTQIAPN+ podem influenciar os resultados observados.
Ademais, o Atlas afirma que a dimensão do crescimento registrado nos últimos anos sugere que o fenômeno não pode ser explicado apenas por melhorias estatísticas e exige atenção para possíveis mudanças reais no padrão da violência direcionada a essa população.
Para Marcelo Oliveira, “os segmentos estruturalmente vulneráveis da sociedade: mulheres, negros e LGBT+ continuam a figurar de forma desproporcional nas notícias policiais, em crimes marcados pela torpeza e pelo ódio”.
Redução de estatística agregada não é o mesmo que redução de vulnerabilidade. São realidades que pedem leituras diferentes e respostas específicas do Estado.
Marcelo Oliveira – professor e pesquisador

Concentração nos mais jovens
Ainda de acordo com o Atlas, existe maior concentração dos casos nas faixas etárias mais jovens.
Entre pessoas dissidentes de gênero (que são aquelas que não se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer), os maiores percentuais de vitimização aparecem entre 15 e 29 anos, permanecendo elevados até o início da vida adulta.
Entre homens transexuais, a incidência é ainda mais concentrada entre 15 e 24 anos.
O documento explica que a concentração da violência entre pessoas mais jovens pode indicar um período de maior exposição a conflitos familiares, escolares e sociais relacionados à orientação sexual e à identidade de gênero.
O estudo foi elaborado a partir dos dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde (MS).
Fonte:A Tarde




