plantas e grãos desbancam petróleo na liderança

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Que a Bahia virou referência nacional e internacional no setor de energia, não há novidade alguma. Nos últimos anos, o estado despontou o setor de energias renováveis, através de fontes eólicas e solares, mas também se destacou na produção de energia não-renováveis como o petróleo e gás natural.

Impactos geopolíticos e a urgência de novos combustíveis

Há pouco mais de três meses, com o início dos ataques bélicos contra o Irã pelos Estados Unidos (EUA) e Israel, em fevereiro desde ano, o Brasil voltou a mostrar que os impactos econômicos não seriam bichos de duas cabeças diante da pujança natural de matrizes energéticas não-renováveis.

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O Brasil segue sendo um grande produtor de petróleo, o que permite utilizar reservas para produção de derivados do produto e exportação. Especialistas do setor ouvidos pelo Portal A TARDE explicam, entretanto, que o país ainda é deficitário no refino do produto, criando mazelas e certa dependência na cadeia produtiva brasileira.

Essa reviravolta geopolítica, entretanto, mostra que está mais que na hora do estado avançar na produção de biocombustíveis, capazes de atender o déficit global de derivados do petróleo, como combustíveis, que são intensamente importados de parceiros comerciais. A Bahia compra cerca de 20,1% desses produtos e gasta ao menos US$ 206,1 milhões nessa negociação.

Papel da biomassa na segurança energética

De acordo com o coordenador do Laboratório de Energia e Gás (LEN), da Escola Politécnica da UFBA, Ednildo Andrade, é preciso que a Bahia esteja preparada para lidar com situações de instabilidades, como a enfrentada pela guerra no Oriente Médio, que pôs em risco a dependência por combustíveis externos.

“Nós temos que continuar incentivando as energias solar e eólica, mas também temos que avançar para a biomassa, porque além de produzir a energia, ela também retém o carbono. E o carbono retido diminui a quantidade de CO2 na atmosfera. Nós podemos produzir, além do etanol, o SAF, o combustível de aviação, que pode ser advindo de qualquer oleaginosa”, explicou ele.

Biocombustíveis são componentes energéticos produzidos a partir de biomassa renovável, seja ela matéria orgânica animal ou vegetal, como a cana-de-açúcar, soja e milho. Esses produtos são fortes alternativas sustentáveis aos combustíveis fósseis derivados do petróleo.

Entre esses componentes, a Bahia conta com fontes energéticas pontuais produzidas a partir de matéria orgânica vegetal: o milho, a soja, o sorgo, a macaúba e a agave tequilana. São nessas frentes de produção que estão as maiores expectativas do mercado de energia baiano e quiçá, mundial.

Além de fontes de energia para a produção de combustíveis verdes, como o etanol, os biocombustíveis de matéria orgânica vegetal, ainda surgem no mercado como fortes concorrentes à produção de biomassas para energia renovável, ração animal e alternativas mais eficazes para o sequestro de carbono.

Países dos Estados Unidos, da América do Sul e Europa já lideram há um tempo o uso de biocombustíveis, principalmente no setor de transporte. Agora, o avanço na produção de combustíveis a base dessas oleaginosas está dando passos promissores para a transição energética no Brasil.

Soja e milho: ouros verdes da Bahia

O mercado de grãos na Bahia é pujante. Mesmo diante dos desafios pontuais na produtividade agrícola, alta de defensivos e fertilizantes diante dos conflitos no Oriente Médio e condições climáticas, a Bahia registrou ganhos expressivos na produção dos grãos nos últimos anos.

A soja, que representa ao menos 19,3% das commodities, produto mais exportado do Estado, deve alcançar um novo recorde histórico neste ano. De acordo com o relatório da Assessoria Econômica do Sistema Faeb/Senar, com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), e o Boletim da Associação dos Irrigantes da Bahia (Aiba), a produção deve ser superior a 14 milhões de toneladas de grãos e fibras, o que representa, respectivamente, crescimento de 2,7% e 4%, de acordo com os estudos.

Esta robustez do grão também inclui o milho, que de acordo com o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), teve a primeira safra de março estimada em 2,088 milhões de toneladas, uma alta de 8,1% em relação a 2025, o equivalente a 156 mil toneladas a mais.

Safra de milho
Safra de milho – Foto: Wenderson Araújo | Trilux | CNA

Nesse ano, a produção total de milho deve alcançar 2,74 milhões de toneladas, uma alta de 18,2% na comparação anual, segundo o Boletim de Conjuntura Agropecuária da Bahia, da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI).

Para Carlos Danilo, especialista em desenvolvimento industrial de energia da Federação de Indústria do Estado da Bahia (FIEB), a Bahia é um dos maiores protagonistas na produção de energia limpa, mas ainda não chegou a explorar nem 20% deste potencial energético.

Danilo exemplifica este cenário, apontando o quanto o estado desponta de pesquisas ligadas ao potencial energético de oleaginosa, em que a Bahia é líder em exportação de commodities.

“Há muitas fontes energéticas, mas que ainda estão em desenvolvimento, em fase de pesquisa. Você tem projetos ligados ao agronegócio, como o uso da planta da macaúba, do milho e da agave, principalmente no sertão baiano”, explicou o especialista.

Bahia acelera a transição energética investindo em biorrefinarias e pesquisas com soja, milho, macaúba e agave
Bahia acelera a transição energética investindo em biorrefinarias e pesquisas com soja, milho, macaúba e agave – Foto: Imagem gerada pelo Gemini (IA)

Etanol com grãos

Há cerca de 960 km da capital baiana, o projeto Inpasa, biorrefinaria de processamento e aproveitamento integral do grão que envolve desde a produção de combustível até a de energia elétrica, entendeu a necessidade de geração de valor dos grãos e produção de soluções limpas e sustentáveis para a crescente demanda por energia do planeta.

Com operação iniciada no início deste ano, a nova planta tem capacidade de processamento anual de 1 milhão de toneladas de grãos, prevendo a produção de:

  • 460 milhões de litros de etanol;
  • 230 mil toneladas de DDGS (coproduto dos grãos, usado principalmente para ração animal);
  • 23 mil toneladas de óleo vegetal;
  • 200 GWh de energia elétrica por ano.

Expansão do sorgo no Oeste Baiano

A unidade, instalada na região de Matopiba, na cidade de Luís Eduardo Magalhães, é a 8ª biorrefinaria da companhia, a 6ª no Brasil, e representa um investimento de aproximadamente R$ 1,3 bilhão para a região.

A Bahia está entre os 10 maiores produtores de milho do país. Cerca de 43% da produção é realizada na região Oeste do estado, onde está localizada a cidade baiana. Além disso, para que possa atender a demanda de outras culturas, o estado começa a despontar a produção de outras culturas, como o sorgo.

Fábrica da Inpasa em Luís Eduardo Magalhães
Fábrica da Inpasa em Luís Eduardo Magalhães – Foto: Divulgação | Freepik

Estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) indicam que a produção de sorgo vai se expandir devido ao alto potencial de produção dos grãos, especialmente em situações de déficit hídrico e baixa fertilidade do solo, que oferecem riscos para outras culturas, como o milho.

Para Flavio Peruzzo, vice-presidente de Negócios e Originação da Inpasa, a produção de sorgo na Bahia caminha na curva de aprendizado e intensifica a produção com foco na comercialização interna e mirando na perspectiva internacional.

“Existe um mercado grande a ser explorado, com desafios gigantes, mas já estamos nessa vanguarda. Existe muita diferença quanto ao cereal, mas nos propomos a usar o sorgo de maneira robusta, intensa. Na Bahia, em especial, o campo respondeu de maneira muito pronta e já estamos processando o sorgo para fazer etanol, DDGS, além da exportação de sorgo. Então os números do sorgo neste ano, no oeste da Bahia, são 250.000 hectares. E a ideia é de que o sorgo entre em uma segunda safra em uma área que o milho não poderia entrar em uma janela climática”, disse ele em entrevista ao Portal A TARDE.

Agave-azul está em fase de desenvolvimento na Bahia
Agave-azul está em fase de desenvolvimento na Bahia – Foto: Divulgação | Freepik

E não é somente expectativas. Atualmente, o Brasil ocupa o terceiro lugar de maior produtor do cereal, perdendo apenas para a Nigéria e os Estados Unidos.

O aumento da produção do cereal é uma das alternativas no campo para a diversificação das culturas. O cultivo do sorgo é considerado “rústico” e “resiliente” às condições climáticas que prejudicam outras culturas, como déficit hídrico e longos períodos de seca.

Essas características possibilitam que potências econômicas iniciem uma movimentação comercial sobre o cereal, como é o caso da China, que recentemente abriu portas para a importação do sorgo. Isso significa uma oportunidade única para a Bahia.

“A gente tem um potencial bastante grande para o sorgo. Isso tira o risco para o agricultor no momento de poder perder uma janela ideal de plantio. O sorgo é mais tolerante à seca. O custo de implantação também é mais barato que o plantado no cultivo da segunda safra. Ele não vai tomar um espaço do vídeo, mas ele vai complementar essa cadeia de novo”, explicou Paulo Bertolini, Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho).

A produção de etanol com esses tipos de cultura pode reduzir em até 90% as emissões de dióxido de carbono (CO2) em relação à gasolina, e vem sendo uma alternativa acessível para a transição energética na Bahia.

Plantas entram na mira dos combustíveis do futuro

Paralelamente a isso, a Bahia também destaca-se pelas pesquisas envolvendo outros produtos, como a macaúba, que tem sido uma alternativa promissora despontada pela Acelen. No Centro de Inovação Tecnológica Agroindustrial, o Agripark, instalado em Monte Claro (MG), o óleo da planta, nativa do cerrado, é extraído para, entre outras coisas, a produção de combustível verde.

A macaúba (Acrocomia aculeata), também chamada popularmente como coco-baboso, coco-de-espinho ou macajuba, é uma palmeira nativa brasileira da família botânica Palmae e pode ser encontrada em quase todas as regiões do território brasileiro.

Através da Acelen Renováveis, empresa de energia com propostas sustentáveis às mudanças climáticas da Acelen, o desenvolvimento desse processo é considerado o maior projeto de biocombustível do país para produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) e diesel verde (HVO).

A produção do combustível verde através da planta é ainda mais produtivo, afinal, o volume de óleo por fruto é de 7 a 10 vezes mais produtivo por hectare plantado em comparação à soja. As projeções indicam potencial de captura de 60 milhões de toneladas de CO2eq durante a vida útil do projeto atual e baixas emissões de produção (19,32 gCO2eq/MJ).

“O caso da Macaúba é espetacular, se de fato isso produzir escala industrial. A Bahia reúne essas condições porque são terras ainda inexploradas, que são degradadas usadas para pasto, ou às vezes nem para nada. Temos as condições naturais e um ambiente propício”, apontou Carlos Danilo.

Ainda de acordo com o projeto da empresa, o uso da planta para a produção de combustível, melhora a biodiversidade, a qualidade do solo e do ar, criando ao mesmo tempo até 85 mil empregos diretos e indiretos.

De acordo com Marcelo Lyra, vice-presidente de Comunicação, ESG, Relações Institucionais Territorial da Acelen, serão plantados 180 mil hectares de macaúba na Bahia e em Minas Gerais, transformando pastagens degradadas em florestas produtivas, sendo que 20% das plantações do projeto serão compostas por parcerias com a agricultura familiar e pequenos produtores.

“Estamos falando de uma iniciativa disruptiva, com potencial de capturar cerca de 60 milhões de toneladas de CO₂ e com impactos de US$ 40 bilhões de dólares na economia brasileira, ao longo do projeto, segundo estudo da FGV”, explicou Lyra.

O projeto abriu portas também para a ampliação do processo logístico dos combustíveis, como a construção de uma biorrefinaria, próximo à área da Refmat, de forma estratégica ao terminal marítimo com maior calado do Nordeste, o Temadre

“Com a Acelen Renováveis, vamos investir mais de US$ 3 bilhões em nossa primeira planta integrada para produção de 1 bilhão de litros por ano de combustíveis renováveis, como SAF e HVO. Esse investimento contribui para consolidar o papel do Brasil na descarbonização global e reforça o potencial do país como protagonista na transição energética”, explicou o porta-voz.

“O projeto reforça nossa atuação voltada ao desenvolvimento das regiões onde operamos, com geração de emprego, renda e oportunidades, aliada a padrões elevados de transparência, excelência operacional e compromisso com o território”, continuou ele.

Da tequila ao etanol

No mesmo sentido, uma descoberta no semiárido baiano tem fortalecido o campo da pesquisa pela produção de combustíveis verdes. Há 345 km da capital baiana, em Jacobina, a Embrapa Algodão, tem fortificado o uso da Agave Tequilana, comumente usada para a produção de tequila no México, para produzir etanol.

A agave, também conhecida como agave-azul, é uma planta do tipo sisal usada no norte do México. O país lidera a produção de tequila, feita com diversas espécies da agave.

A chegada da planta no Brasil, há 40 anos, fez os pesquisadores descobrirem a capacidade energética que a Bahia possui para despontar a produção de combustíveis verdes, afinal o estado concentra cerca de 95% da produção nacional de sisal, principais fontes de renda do chamado Território do Sisal, de acordo com dados do IBGE.

A pesquisa ainda está em fase de adaptação da planta à região de semiárido baiano e paraibano, nas seguintes localidades:

  • Jacobina (BA)
  • Itaguaçu da Bahia (BA)
  • Alagoinha (SE)
  • Monteiro (PB).

A produção desse tipo de sisal no semiárido baiano garante pontos fortes para o sequestro de carbono. Os pesquisadores por trás dessa iniciativa observaram que a chamada pegada hídrica para a produção da agave é consideravelmente menor e, que além disso, suas diversas características de alta produtividade e teor de carboidratos são fatores importantes para a compensação líquida de gases de efeito estufa.

“Então a agave tequila entra dentro dessa região de forma inovadora entre o agave existente aqui no Brasil. Só se aproveitava 4 ou 5% dessa produção. A intenção agora é aproveitar dentro dessa cadeia com fins energéticos toda a cultura. Toda biomassa vai ser aproveitada e isso entra dentro de um índice de sequestro de carbono de bens mensuráveis e também de bens duráveis onde o carbono vai estar bem mais incorporado”, explicou o pesquisador da Embrapa, Everaldo Medeiros.

Estudos apontam que após o processo de que até o final do projeto, os dados comecem a apresentar rendimento mais palpáveis e uma base consolidada, entretanto, em questão da produção do etanol que já possui condições de escala de laboratório, as dimensões possuem “rendimentos interessantes”.

“A gente tem expectativa que o projeto tome uma proporção já entrando para uma escala piloto, uma escala de produção e aí entram outros desafios. Os desafios seguintes seriam os desafios de desenhar uma biorrefinaria de forma que aproveite todo esse incremento na parte de produção dessa biomassa, como também na parte de produção agrícola”, explicou Everaldo.

Mas o que ainda falta para a Bahia avançar?

De acordo com Carlos Danilo, especialista em desenvolvimento industrial, o país, apesar de muito rico em fontes renováveis através da energia eólica e solar, ainda enfrenta déficits quanto ao armazenamento e transmissão de energia, o que torna a busca por outras fontes energéticas indispensáveis.

“Isso está trazendo muitos prejuízos. E isso é um paradoxo, porque enquanto estamos com bandeira amarela, que significa risco hidrológico, se está jogando energia fora. Isso acontece porque temos falta de linhas de transmissão que deveriam escoar essa produção do Nordeste, principalmente da Bahia, para maiores mercados consumidores, principalmente do Sudeste”.

Outro ponto de preocupação está no alto consumo por datas centers, o que leva o estado a buscar novos centros de consumo de energia.

Por outro lado, Ednildo Andrade aponta que além de resíduos da agricultura para a produção de biomassa, o estado ainda pode se destacar no desenvolvimento de biometano, gás produzido a partir de resíduos ou de excremento de animais, principalmente por aumentar o fornecimento para a sociedade.

“Esse gás é purificado e pode virar o chamado biometano que pode ser injetado nas redes de gás natural da Bahiagás para ajudar na produção e no aumento da disponibilidade de gás para a sociedade para consumo nos veículos, das indústrias, das residências e assim por diante”, continuou ele.

Imagem ilustrativa
Imagem ilustrativa – Foto: Feita com IA

Essa e tantas outras possibilidades, entretanto, ainda estão em fases iniciais, o que impossibilita uma oferta imediata dessas matrizes energéticas para o consumo. A Fieb argumenta que essas mudanças tecnológicas costumam demorar muito e que tendem a ter um valor de custo inicial mais alto do que os combustíveis convencionais à base fóssil.

“Energia solar e energia eólica não são intermitentes. A solar, obviamente não gera energia à noite, e na eólica, às vezes, o vento falta durante um determinado horário. Essa tecnologia leva tempo para se consolidar de fato e substituir outras tecnologias. É uma nova, um novo momento. Você passa e vê que essa tecnologia continua progredindo”, continuou ele.

Enquanto isso, a Bahia vem despontando frentes promissoras para que, assim como produção de minerais críticos, de energias limpas e renováveis, de tecnologia de ponta e de turismo, também seja referência e polo de investimentos em matrizes energéticas sustentáveis, ou melhor, em energia do futuro.





Fonte:A Tarde

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