Antes de ver crianças de Lauro de Freitas dividindo espaço com atletas da Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica, Ângela Bispo também foi uma menina que encontrou no esporte uma possibilidade de futuro. Aos 10 anos, ela começou a praticar ginástica em um projeto social da prefeitura. Aos 15, viu a iniciativa chegar ao fim. Mas, em vez de se afastar da modalidade, decidiu continuar.
Hoje, aos 38 anos, Ângela soma mais de duas décadas de trajetória na ginástica rítmica e, de atleta, se tornou a idealizadora de um projeto que tenta oferecer a outras meninas a oportunidade que um dia mudou a própria vida.
Ao lado da irmã, Arlene Bispo, ela conduz o Festival Talentos da Terra, que chegou à 15ª edição neste sábado, 23, no Galpão de Eventos do Parque Shopping Bahia, em Lauro de Freitas. Unindo crianças, famílias, jovens ginastas e atletas da Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica em um só espetáculo, o evento fez o que, desde sempre, teve como maior meta – mostrar que o sonho do esporte é possível para qualquer um.
Leia Também:
O Festival Talentos da Terra nasceu com a proposta de fortalecer a ginástica rítmica e dar visibilidade a crianças e adolescentes que estão começando na modalidade, criando um ambiente acolhedor para que as jovens atletas possam se apresentar, conviver com outras meninas e se enxergar como parte do universo esportivo.
Partindo da paixão de Ângela pela ginástica, toda a família acabou se envolvendo, construindo juntos o projeto que hoje é tocado por quatro irmãos. “Eu comecei a trabalhar com ela a partir da minha filha, que deu início na ginástica rítmica”, conta Arlene, irmã de Ângela.
“Aí eu me aproximei mais da ginástica junto com minha irmã. Hoje, já tenho uns 10 anos trabalhando com ela, tentando organizar. Fico mais nos bastidores, dando aquele apoio. Em tudo que ela faz, eu estou apoiando”, contou Arlene.
A parceria entre as irmãs ajuda a sustentar uma iniciativa que envolve logística, acolhimento das crianças, contato com famílias, organização de eventos e articulação com atletas, escolas e instituições.
Futuro da ginástica
A ginástica rítmica, para as idealizadoras, é também uma ferramenta de formação – e isso está presente em alunas de todas as idades do projeto. No Centro de Treinamento Kadosh, crianças começam a praticar esportes partir dos três anos, enquanto no projeto social, a iniciação acontece a partir dos seis.
Para Ângela, começar cedo ajuda as meninas a desenvolverem habilidades que ultrapassam o tablado. “É muito importante elas iniciarem mais cedo, porque já tem um roteiro a se aprender: a disciplina, o compromisso, a responsabilidade. Então, nós trabalhamos de uma forma que elas consigam galgar tudo isso de forma positiva”, explicou.

Essa formação não significa, necessariamente, que todas seguirão carreira como ginastas. Para o projeto, esse não é nem mesmo o objetivo. A real proposta é que o esporte seja uma base para a vida, ajudando as meninas a construírem autoestima, foco, convivência, responsabilidade e perspectiva de futuro.
“Muitas delas podem ser que não virem ginastas, mas eu tenho certeza que sairão médicas, advogadas, delegadas, juízas. Hoje nós já temos alunas criadas no projeto que são biólogas, peritas criminais, médicas, advogadas, entre outras profissões”, destacou Ângela.
Medalha no peito
Junto às irmãs, Wellington Jesus Bispo, conhecido como Wellington Negão, trabalha todos os dias por um projeto que mude a realidade de crianças como eles foram um dia, colocando o esporte como uma possibilidade de futuro.
“Nós somos frutos do esporte e a gente acredita que é muito melhor impulsionar o jovem para que ele opte por ter uma medalha no peito do que ter uma arma na cintura“, afirmou.
Para Wellington, o projeto oferece uma alternativa concreta para meninas em contextos de vulnerabilidade social. Ele destaca que, enquanto muitas adolescentes da comunidade enfrentam problemas como gravidez precoce e falta de perspectivas, as meninas da ginástica passam a projetar outros caminhos.
“Muitas vezes, as meninas de 14, 15 anos da comunidade estão engravidando. As meninas da ginástica estão preocupadas em colocar medalhas no peito, e a maioria delas está buscando oportunidades em faculdades”, disse.
“Desse projeto de ginástica rítmica, nós temos campeãs brasileiras, campeãs Norte-Nordeste e etapas de Baiano, mas nós temos médicas, diversas fisioterapeutas, educadoras físicas, advogadas que foram crianças desse projeto, que se desenvolveram e se tornaram excelentes profissionais, independente de serem ou não ginastas da Seleção Brasileira”, afirmou.
“Toda vez que a gente ajuda a trazer a Seleção Brasileira aqui para a nossa cidade, é pensando que as nossas crianças têm que ter esse espelho. Que elas queiram, sim, ser campeãs, que elas queiram, sim, representar o Brasil na Olimpíada, mas, acima de tudo, que a gente possa formar cidadãos e cidadãs de bem“, completou.
Ao longo de 15 edições, o Festival Talentos da Terra se tornou mais do que uma vitrine da ginástica rítmica. Para as irmãs Bispo, o projeto é uma forma de devolver à comunidade aquilo que o esporte ofereceu a elas – oportunidade, disciplina, pertencimento e futuro. É, acima de tudo e como a própria Ângela diz, uma “oportunidade de mudar vidas”.
O Centro de Treinamento Kadosh está localizado na Travessa 2 de Fevereiro, 145 – Centro, Lauro de Freitas.
Fonte:A Tarde




