A relação entre política fiscal e juros longos ocupa o centro do debate macroeconômico brasileiro.
Em análise baseada em estudo recente do UBS Wealth Management, Solange Srour avalia que o Brasil enfrenta um desafio estrutural significativo: as metas de superávit primário vigentes são insuficientes para estabilizar a dívida pública diante do atual patamar de juros reais.
Dois componentes dos juros longos
A colunista do CNN Money explica que a taxa de juros longa pode ser decomposta em dois elementos: a expectativa de política monetária ao longo do tempo e o prêmio de risco.
No caso dos Estados Unidos, o aumento recente das taxas longas não reflete perda de confiança na política fiscal norte-americana, mas sim uma reprecificação da política monetária e a percepção de que o juro neutro deve ser mais elevado no futuro, inclusive em razão de mudanças tecnológicas e da demanda de capital gerada pela inteligência artificial.
No Brasil, o cenário é distinto. Segundo Srour, o aumento das taxas longas observado desde o final de 2024 está diretamente associado a uma perda de credibilidade da política fiscal.
“Esse aumento da taxa de juros longa que aconteceu desde o final de 2024 tem a ver sim com uma perda de credibilidade da política fiscal”, afirmou. Ela destaca que iniciativas adotadas naquele período deterioraram as perspectivas de estabilidade da dívida.
Choque fiscal, não pequenos ajustes
A analista argumenta que choques fiscais positivos, como o teto de gastos e a reforma da Previdência, foram capazes de reduzir o prêmio de risco em até quase 200 pontos.
Com base nisso, ela defende que apenas uma mudança de regime — e não pequenos ajustes — seria capaz de reduzir o juro real brasileiro do patamar atual de cerca de 7,5% ao ano para próximo de 5,5%.
Entre as reformas necessárias, Srour cita a previdência administrativa, a desindexação do salário mínimo e, possivelmente, a desindexação das áreas de saúde e educação em relação à arrecadação.
Para estabilizar a dívida em relação ao PIB (Produto Interno Bruto), Srour estima que seria necessário um ajuste fiscal da ordem de 3,5% a 4% do PIB.
“A gente tem metas de superávit primário muito pouco ambiciosas, que não estabilizam a dívida”, afirmou.
Ela ressalta que as projeções otimistas que apontam para a estabilização da dívida pressupõem um PIB potencial de 3% a 3,5% e juros reais de 4% a 4,5% — condições que não correspondem à realidade atual, com juros reais em 7,5%.
Risco de postergação do ajuste
Srour alerta que adiar o ajuste fiscal tornará o problema ainda mais grave no futuro. Em um cenário de juros globais estruturalmente mais elevados, o custo de oportunidade para investidores aumenta, e a exigência de superávit primário para estabilizar a dívida tende a crescer.
“O Brasil está com o fundamento fiscal desajustado e o juro real aqui não vai cair com pequenos ajustes, porque isso historicamente nunca aconteceu”, concluiu.
A analista também descarta a hipótese de reduzir artificialmente a Selic como solução para aliviar o custo da dívida. Segundo ela, uma queda forçada da taxa básica levaria investidores a migrar para títulos de prazo mais longo, que oferecem remuneração mais elevada, pressionando ainda mais o prêmio de risco.




