O Irã já iniciou a reconstrução de partes de sua produção de drones durante o cessar-fogo de seis semanas com os Estados Unidos, e o processo ocorre de forma mais rápida do que as autoridades americanas antecipavam. Relatórios de inteligência obtidos pela CNN indicam que os ataques não foram capazes de destruir completamente as capacidades militares iranianas.
Segundo as avaliações militares, dois terços dos lançadores de mísseis iranianos sobreviveram aos ataques. Alguns desses equipamentos são mísseis de cruzeiro para defesa utilizados para dificultar o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz.
Diversas máquinas encontram-se enterradas em escombros, mas o regime pode recuperá-las. Além disso, o exército iraniano moveu estações de lançamento de mísseis para outros locais, em um reposicionamento estratégico.
Capacidade militar preservada e suporte externo
Cerca de 50% da capacidade total de drones do Irã permanece intacta. As estimativas indicam que Teerã seria capaz de retomar plenamente seus equipamentos em apenas seis meses.
Esse cenário resulta tanto da incapacidade dos ataques americanos e israelenses de obliterar as forças militares iranianas, quanto do suporte fornecido por China e Rússia, que teriam disponibilizado componentes para a construção de mísseis e outros dispositivos — acusação que Moscou e Pequim negam.
Questionado sobre os dados da CNN que correm em paralelo a informações publicadas pelo The New York Times, com base em briefings de inteligência americana, o professor de Ciências Militares da Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército) Sandro Teixeira Moita afirmou que “é possível imaginar 70% da capacidade militar iraniana preservada”. Segundo ele, o Irã se preparou para esse conflito de forma meticulosa.
“Foi uma guerra estudada, foi pensada”, disse Moita, acrescentando que a chamada “Guerra dos 12 Dias“, ocorrida em junho do ano passado, forneceu uma série de lições ao Irã, incluindo a necessidade de pulverizar arsenais, estruturas de comando e designar múltiplos sucessores para cada figura de liderança.
Drones mantidos mesmo sob ataque
Sandro Teixeira Moita ressaltou que a capacidade do Irã de manter a produção de drones mesmo sob ataque de Israel e dos Estados Unidos. “Na verdade, a gente tem três problemas aqui muito claros”, afirmou.
O primeiro diz respeito à extensão real das capacidades iranianas. Os outros dois são associados: tanto o Irã quanto os Estados Unidos se percebem como vencedores do conflito — os americanos por terem imposto danos significativos, e os iranianos por terem resistido ao “assalto israelo-americano”.
“Essas duas visões de mundo não se reconciliam”, disse Moita, alertando que essa divergência tem gerado travamentos no processo de negociação de paz.
O professor de Ciências Militares da Eceme também citou relatos de que, mesmo durante a guerra, os iranianos conseguiam reabrir o acesso a áreas de estoque de mísseis atacadas em até 12 horas, retirando os equipamentos para utilizá-los no Golfo. Foi debatida ainda a questão sobre quantos dias de bombardeios seriam necessários, em uma eventual retomada dos ataques aéreos, para destruir totalmente os arsenais iranianos — considerando que a campanha anterior durou 37 dias.
Desafio estratégico para os Estados Unidos
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna avaliou que uma nova ofensiva militar americana seria “politicamente e estrategicamente inviável”, ainda que operacionalmente possível. “O que eles podem fazer agora militarmente que eles não fizeram durante a campanha anterior?”, questionou.
Lourival acrescentou que o tempo corre contra os Estados Unidos, com as questões econômicas se deteriorando progressivamente em função do impacto do fechamento do Estreito de Ormuz.
Um aspecto destacado pelo analista foi que os arsenais iranianos posicionados nas falésias da costa do país voltadas para o Estreito de Ormuz não sofreram degradação relevante. “Os ativos mais estratégicos do corpo da Guarda Revolucionária iraniana dedicados a essa opção de bloquear o Estreito de Ormuz ficaram praticamente intactos depois desses bombardeios super maciços”, afirmou.
Para ele, o bombardeio foi “linear”, sem um foco qualitativo estratégico suficiente, o que explica o motivo de o Estreito permanecer fechado e os Estados Unidos enfrentarem tanta dificuldade nas negociações com o Irã.




