A experiência de empresas já instaladas na Bahia é indicativo de que é possível avançar para modelos mais integrados de mineração e industrialização. A Galvani, companhia brasileira de fertilizantes fosfatados, atua de forma verticalizada no estado, conectando extração, beneficiamento mineral, produção industrial e distribuição. A empresa mantém operação de mineração em Angico dos Dias, em Campo Alegre de Lourdes, e um complexo industrial em Luís Eduardo Magalhães, onde o minério fosfático é transformado em fertilizantes voltados sobretudo ao agronegócio do Matopiba – região que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Agora, a empresa também avança na implantação do Projeto de Mineração de Irecê, previsto para iniciar operação em 2027. A unidade terá capacidade para produzir 350 mil toneladas anuais de concentrado fosfático e 600 mil toneladas de corretivo agrícola. Na nova operação em Irecê, estão previstos cerca de R$ 600 milhões em investimentos, além de aproximadamente 1,3 mil empregos diretos e indiretos na fase de implantação do projeto. Os impactos vão além dos números. O diretor-presidente da Galvani, Marcelo Silvestre, destaca o efeito, na economia local, da contratação de fornecedores e serviços, além da integração entre mineração, produção e indústria. Para ele, o projeto não só contribui para competitividade e eficiência operacional da empresa, mas também reforça a cadeia produtiva na Bahia.
“O beneficiamento mineral dentro do próprio estado é fundamental para ampliar a geração de valor e impulsionar o desenvolvimento econômico regional. Quando o minério é beneficiado localmente, a riqueza gerada pela atividade mineral permanece no estado, estimulando a industrialização, a geração de conhecimento técnico e o fortalecimento da cadeia produtiva. A atuação integrada da Galvani permite agregar valor ao minério fosfático ainda na origem, transformando-o em um insumo estratégico para o agronegócio brasileiro. Esse modelo contribui diretamente para o aumento da arrecadação de impostos, além da criação de empregos qualificados”, avalia.
Em geral, as perspectivas para o estado são otimistas. Além dos aspectos naturais, a Bahia tem uma carteira de incentivos fiscais para empreendimentos que desejam se instalar aqui. Neste sentido, o presidente da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), Henrique Carballal, alerta: “Terra rara não é petróleo. Você precisa ter a tecnologia do processamento”.
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Desafio tecnológico cresce no estado
No caso de projetos relacionados a terras raras, não há dúvida de que a integração deve acontecer gradualmente. Mas o primeiro passo já foi dado com a descoberta de reservas e a atração de empresas interessadas na exploração. Especialista em desenvolvimento industrial do Observatório da Indústria Fieb, Carlos Danilo Peres enxerga isso com bons olhos, mas lembra que a etapa seguinte é a mais desafiadora: a atração de empresas que incorporem esses minerais em suas cadeias produtivas. “Trata-se de um processo complexo, condicionado à viabilidade técnico-econômica e às vantagens competitivas que a economia local possa oferecer”, diz.
Ainda assim, Peres vê a Bahia saindo na frente por “uma série de coincidências”, além das questões geológicas. O tema terras raras vem sendo impulsionado globalmente por três eixos principais, aponta o especialista: a transição energética, marcada pela expansão de fontes como eólica, solar e biomassa, que demandam minerais críticos; a eletrificação, especialmente da mobilidade urbana e do transporte, que amplia significativamente a demanda por baterias, motores e componentes intensivos nesses minerais; e a digitalização da economia, que envolve o avanço da inteligência artificial.
As “coincidências” estão no fato de o Estado já contar com indústria consolidada de energias renováveis, especialmente eólica e solar, por avançar na atração de investimentos ligados à mobilidade elétrica e ver a possibilidade de atração de data centers. “Nesse contexto, projetos de terras raras representam oportunidade concreta de agregação de valor, fortalecimento da indústria local e maior inserção do Estado em cadeias globais estratégicas”, afirma Peres.
A Bahia já reúne, para a extração mineral, condições favoráveis e avanços concretos, inclusive de infraestrutura e escoamento da produção. “O desafio é avançar para o beneficiamento e, posteriormente, para a transformação desses minerais, agregando valor e estimulando o desenvolvimento de cadeias produtivas associadas. Trata-se de um caminho complexo, mas plenamente possível”, finaliza.
Fonte:A Tarde



