Na primeira década dos anos 2000, quando a internet ainda era discada e a palavra “influencer” ainda não fazia parte do vocabulário cotidiano, uma jovem já chamava atenção por uma exposição que misturava ostentação, vida pessoal e circulação em ambientes ligados ao crime.
O nome dela era Kelly Sales Silva. Mas a memória coletiva dos baianos só vai reconhecê-la pelo apelido: Kelly Cyclone.
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Para uns, Kelly era a “dama do pó”. Para outros, a “patroa do tráfico”. Houve também quem a visse apenas como uma jovem em busca de afeto e visibilidade. A depender da versão, ela foi todas essas figuras — e talvez nenhuma delas.
O indiscutível é que Kelly se tornou um fenômeno do noticiário baiano. Durante o dia, Kelly aparecia em fotos e cenas domésticas com bonecas, ursinhos de pelúcia e declarações de amor escritas nas paredes de casa.

“Tony, eu te amo de uma forma que não sei explicar”, dizia uma das frases atribuídas a ela. À noite, surgia no Orkut com armas, roupas de marca e poses que davam a impressão de confronto.

Antes que as redes sociais se tornassem espaço de performance diária, Kelly já explorava esse território de exposição e atenção.

São amores
Nas festas de pagode, conheceu Bombado Doçura, percussionista da banda Saiddy Bamba. O relacionamento rendeu a ela não apenas notoriedade, mas também um apelido. Depois do fim da relação, abandonou o “Doçura” e passou a usar “Cyclone”, em referência a uma marca de roupas muito associada à moda das periferias naquele período. O nome virou identidade, e a identidade virou personagem pública.

A partir daí, sua história passou a se cruzar ainda mais com o cenário de violência que moldava Salvador nos anos 2000. Informações divulgadas pela imprensa, à época, revelam que Kelly se envolveu com homens ligados ao crime, como Sydnei Ferreira, traficante do Garcia que foi morto pela polícia durante um assalto a ônibus, e depois um homem de prenome Hugo, que acabou morto em uma briga. Os nomes viraram tatuagens, numa espécie de registro permanente da vida afetiva e da própria trajetória.

A imprensa baiana explorou a fundo os vínculos afetivos de Kelly, que passavam por nomes ligados ao Comando da Paz e ao Bonde do Maluco, facções que disputavam território e influência no tráfico de drogas.

Embora nunca tenha sido oficialmente apontada como integrante dessas organizações, ela circulava entre personagens centrais desse ambiente, o que ampliou sua exposição e sua fama.
A consagração como figura pública veio com a chamada “Festa do Pó”, em fevereiro de 2010. Segunto informações da Polícia, à época, o evento terminou com 44 pessoas detidas e ganhou repercussão em toda a imprensa. Kelly estava entre os presos.
Na delegacia, negou participação no tráfico e disse que a droga era de outras pessoas. Kelly manteve a versão em todas as outras vezes que foi questionada.
A partir dali, sua imagem se consolidou de vez no imaginário popular de Salvador, entre programas policiais, comunidades no Orkut e comentários que misturavam julgamento moral e curiosidade.

Mesmo com todo o vasto histórico amoroso, Kelly mantinha um desejo comum a todas as meninas de mesma idade: encontrar um príncipe, moço direito e que a tratasse como uma princesa. Por trás da “patroa” existia, ainda, uma garotinha.
O fim do mito
A última noite de Kelly começou no show da banda Pixote, no Wet’n Wild, durante o inesquecível Salvador Fest. Na grade do dia do festival, a banda A Bronkka, de quem Kelly era fã fiel.
Vestindo uma camisa da Argentina e acompanhada da irmã e de três amigas, ela passou mal e pediu para ir embora. Depois de sair do local, entrou no carro de Carlos Gustavo Cohen Alencar Braga, o Gustavinho.

Mais tarde, seria vista pela última vez por volta das 1h da manhã do dia 18 de julho, na Rua Romualdo de Brito, no centro de Lauro de Freitas.
A região estava movimentada por causa dos bares. Testemunhas contaram à polícia que um carro preto parou próximo ao prédio da Previdência Social. Em seguida, Kelly desceu correndo com sangramento na região abdominal. Depois se confirmou que ela havia sido esfaqueada.
Um homem atirou duas vezes de dentro do carro, Kelly desceu e andou alguns metros, caindo morta em praça pública.
A perícia confirmou a violência do crime. A investigação, porém, não chegou a uma conclusão definitiva.
O velório foi um acontecimento, como quase tudo na vida de Kelly. Uma multidão de familiares, fãs, amigos, vizinhos, jornalistas e fotógrafos esteve presente para se despedir ou só para registrar o momento histórico.


Kelly Sales Silva foi enterrada no dia 18 de julho de 2011, usando roupas da Cyclone e um boné vermelho.

Julgamento sem culpados
No início, Gustavinho, que é filho de policial, foi apontado como principal suspeito e negou o crime desde o início. Depois, em 2012, o inquérito mudou de direção e atribuiu o crime aos irmãos Emerson, o Miminho, e Ericson, o Véio. Segundo a investigação, o assassinato teria sido encomendado por um dos amores de Kelly, que teria desconfiado de uma traição com Gustavinho.
A versão não se sustentou no tribunal. Em 2016, os acusados foram inocentados por falta de provas. Desde então, o caso ficou sem novos desdobramentos judiciais.
De acordo com a setença do júri presidido pela Juíza de Direito Penal Jeine Vieira, após pedido do Ministério Público da Bahia (MP-BA), ratificado pela defesa, os irmãos acusados do homicídio foram absolvidos, sob prerrogativa da insuficiência de provas contra os acusados.
A sentença destaca: “Decidiu o Conselho de Sentença reconhecer a materialidade, mas negou a autoria delitiva. Em face disso, os jurados julgaram improcedente a denúncia e absolveram os réus Ericson e Emerson das acusações narradas na denúncia”.
O Ministério Público, que aparece como autor do processo desde o início do caso, no ano de 2011, durante uma movimentação em 2013, denunciou os acusados, conforme trecho: “O Ministério Público denunciou Ericson, Emerson já devidamente qualificados nos autos, imputando-lhe a conduta tipificada no art. 121, §2°, inciso I e II do Código Penal. Informa a acusação que no dia 17 de julho de 2011, por volta das 23 horas, na Rua Romualdo de Brito, os denunciados, de comum acordo, utilizando-se de armas de fogo, tipos revólver e pistola, interceptaram e direcionaram o armamento que portavam contra o automóvel e dispararam contra a vítima KELLY SALES SILVA, alcunhada de KELLY CICLONE, que se encontrava no interior do veículo, no banco do carona, ceifando-lhe a vida, conforme laudo de exame cadavérico de fls. 152. Recebida a denúncia (fl.216), o réu foi citado (fls. 221/223) e apresentou defesa prévia (fl. 227/230). Durante a instrução criminal, procedeu-se a oitiva das testemunhas arroladas (fls. 269/283, 300/303 e 304/309), interrogando-se os acusados em seguida (fls. 318/320). Em alegações finais (fls. 353/354) o Ministério Público pugnou pela pronúncia dos acusados.”
Entre versões e memória
Logo após a morte, a polícia passou a tratar a hipótese de que Kelly teria sido assassinada em razão de disputas ligadas ao crime organizado. Com o passar do tempo, outras versões passaram a circular entre familiares e pessoas próximas. A família de Kelly declarou à imprensa que sua morte teria sido resultado de uma disputa amorosa envolvendo três homens. Além de Gustavinho e Tony, o traficante Wellington, o Mão, também seria um dos envolvidos.
Também surgiram relatos sobre comemorações em um bar em Lauro de Freitas, onde um grupo de adolescentes e homens ligados ao crime teria bebido e consumido drogas para festejar a morte de Kelly. A farra só chegou ao fim quando o grupo foi informado de que a polícia se aproximava. Rapidamente, o aglomerado de pessoas foi desfeito e ninguém foi preso.
Em setembro de 2011, a Polícia realizou uma operação durante o aniversário de 26 anos de Miminho, no bairro Vila Praiana na localidade chamada Boca de Vulcão. Durante a incursão, o “Mão”, suspeito de ser mandante do assassinato de Kelly, conseguiu fugir.
Já Rogério, 25 anos, de quem a Polícia também suspeitava de estar envolvido na execução de Cyclone, morreu em troca de tiros com a polícia. Um terceiro homem, Antenor, 24 anos, também morreu em um dos tiroteios.
Uma denúncia anônima levou a polícia ao local, onde havia uma festa regada a álcool, drogas e armas. Ao chegar na casa, os policiais já foram recebidos a tiros. Os traficantes Mão e Neguinho, mesmo feridos na troca de tiros, conseguiram fugir.
Sem respostas
Quinze anos depois, o que resta é o mito e muitas questões não respondidas. Para produzir esta reportagem, o BNews procurou a Polícia Civil, o Ministério Público e o Tribunal de Justiça do Estado.
A Polícia informou que o inquérito policial foi concluído e remetido ao Poder Judiciário com o indiciamento de dois suspeitos pelo crime de homicídio de Kelly.
O Tribunal de Justiça informou que não localizou nenhuma ação relacionada ao caso nos sistemas do TJBA e explicou que é possível que o processo de Kelly tenha tramitado fisicamente e, por isso, não foi localizado no ambiente digital.
“Informamos que, após pesquisas realizadas em nome das partes indicadas, não localizamos a ação relacionada ao caso no âmbito deste TJBA. Ressaltamos que, se à época do fato o processo tenha tramitado fisicamente, esteja arquivado ou com status de segredo de justiça, a pesquisa não retornará resultados”.
Já o Ministério Público da Bahia foi contactado pela reportagem cerca de sete vezes para levantamento de informações sobre o julgamento dos suspeitos, a anulação por falta de provas e a extinção do processo e, principalmente, para entender por que não houve outro suspeito apontado como executor ou mandante do crime.
Nenhuma das tentativas de contato foi respondida pelo órgão.




