Kalshi atinge US$ 22 bi sob contestação de reguladores do mercado preditivo

PODP BAHIA
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Se o mercado de preditivos fosse tão forte em 2002 quanto é em 2026, as mesmas previsões que ajudaram o Oakland Athletic’s a conquistar a liga norte-americana de beisebol poderiam ter elevado a Kalshi — hoje avaliada em US$ 22 bilhões — a um patamar ainda maior, já que 85% do volume negociado na plataforma vem de previsões esportivas.

Naquela temporada, o time da MLB (Major League Baseball) fez história ao emendar 20 vitórias consecutivas, a maior sequência já registrada em uma temporada da liga.

O feito foi alcançado com um orçamento bem mais apertado do que o de seus rivais: em vez de disputar contratações milionárias, o Oakland recorreu à análise estatística para identificar e recrutar jogadores subvalorizados, transformando dados em vantagem competitiva.

A Kalshi ainda não estava nos planos de Luana Lopes Lara, de 29 anos, cofundadora da startup, mas a lógica por trás do Athletic’s de 2002 — transformar probabilidades em vantagem competitiva — é, coincidentemente, a mesma da empresa que, em 2026, detém mais de 50% da fatia do mercado de preditivos, segundo pesquisa da Dune Analytics em parceria com a Keyrock.

Embora seja um fenômeno nos Estados Unidos, a empresa se vê hoje no centro de discussões sobre suas atividades, ainda que o mercado de previsões seja tão antigo quanto o próprio Oakland A’s.

Mesmo amparada pela CFTC (Commodity Futures Trading Commission), que a classifica como uma bolsa de contratos de eventos, parte do mercado a enxerga como mais um aplicativo de apostas esportivas, ou bet, contestando a legitimidade de suas operações.

Kalshi: é bet ou não?

Os mercados preditivos, ou de previsões, funcionam como bolsas de negociação em que os contratos são baseados em eventos futuros — como eleições, decisões de juros, cultura pop, ciência e esportes (o principal deles). Já as bets operam em um modelo diferente: se o palpite acerta, o apostador recebe um prêmio fixo.

Durante as eleições americanas de 2024, disputadas entre o atual presidente Donald Trump e Kamala Harris, essas plataformas ofereciam contratos divididos em dois papéis binários: “SIM” e “NÃO”.

Os preços variavam entre US$ 0,01 e US$ 0,99, refletindo a probabilidade de vitória de cada candidato — sendo US$ 1 equivalente a um cenário de 100% de chance de o evento ocorrer.

Cada investidor comprava o papel correspondente ao cenário em que acreditava e, diferentemente de uma aposta tradicional, podia revender esse contrato a qualquer momento, evitando ficar preso ao prejuízo.

Foi nesse segmento que a empresa de Lara e Tarek Mansour, cofundador, nasceu e passou a crescer. Fundada em 2018, a Kalshi passou seus primeiros anos lutando para obter autorização da CFTC, o órgão regulador americano, para operar como uma bolsa de derivativos de eventos nos Estados Unidos.

A autorização veio em 2020, tornando a Kalshi a primeira empresa autorizada a atuar nesse segmento. O que diferencia o negócio de plataformas puramente especulativas e recreativas é justamente o modelo operacional regulamentado — algo que não acontece com sua principal concorrente, a Polymarket.

Outra diferença entre as duas maiores empresas de previsão é que as negociações individuais são públicas na Polymarket: como a plataforma opera inteiramente on-chain na blockchain Polygon, qualquer pessoa pode ver o valor das negociações de usuários individuais, o momento em que foram realizadas e quanto cada carteira lucrou no final.

Além disso, ao contrário da Kalshi, a Polymarket permite negociações em criptomoedas e o cadastro é pseudônimo — não exige documento ou KYC, embora todas as operações fiquem permanentemente vinculadas ao endereço público da carteira, o que significa que a plataforma é altamente transparente, e não anônima no sentido estrito.

Também por conta da regulamentação, a Kalshi não pode lucrar diretamente com as perdas dos investidores. Ela opera como uma “exchange peer-to-peer”, modelo em que os próprios usuários negociam entre si, sem que a plataforma atue como contraparte.

Assim como ocorre nas bolsas de valores tradicionais, seu lucro vem da cobrança de taxas sobre as transações, calculadas com base nos ganhos esperados de cada contrato, funcionando como uma espécie de taxa de corretagem já prevista em regulamento — a Kalshi recebe sua taxa independentemente de qual lado vence.

Desde a regulamentação, o “boom” da Kalshi e de suas concorrentes elevou o volume mensal movimentado pelo setor de US$ 100 milhões para US$ 13 bilhões em dezembro de 2025 — um crescimento de 130 vezes.

Os dados, verificados pela Dune Analytics e pela Keyrock, posicionam o mercado preditivo como um dos setores financeiros que mais crescem no mundo. A mesma pesquisa mostra que mais de 43 milhões de transações foram realizadas até novembro do ano passado, um volume 180 vezes maior do que dois anos antes.

A Kalshi também foi a única empresa a conquistar autorização para operar contratos envolvendo eleições, em 2024 — algo que permanecia proibido nos Estados Unidos havia 100 anos.

Durante a disputa presidencial, a plataforma movimentou cerca de US$ 535 milhões (R$ 2,6 bilhões). Mais da metade desse valor foi aplicada em contratos que apontavam Donald Trump como vencedor — cenário que de fato se concretizou.

Federal Reserve, um dos principais usuários

Na prática, a reunião de diferentes opiniões dentro da plataforma se converte em previsões mais assertivas. Tanto que, nos Estados Unidos, o próprio banco central americano, o Fed (Federal Reserve), utiliza pesquisas da Kalshi como termômetro para decisões econômicas.

Um estudo publicado pelo Fed explicou o motivo. Segundo o artigo, desde que entrou em operação em 2021, as previsões da Kalshi demonstraram precisão significativamente maior do que projeções tradicionais de analistas.

A empresa acertou com exatidão a taxa efetiva do Fed no dia de cada reunião desde 2022 — feito que nem pesquisas convencionais nem mercados futuros tradicionais conseguiram alcançar.

O estudo aponta que isso acontece porque mercados de derivativos oferecem insights únicos e em tempo real: seus investidores reagem imediatamente a notícias e à divulgação de indicadores econômicos, enquanto pesquisas e modelos tradicionais costumam fornecer apenas estimativas pontuais e atualizadas com pouca frequência.

Além disso, o fato de a Kalshi ser acessível a investidores fora das instituições financeiras cria uma perspectiva diferente daquela observada em mercados mais nichados, oferecendo uma visão complementar sobre como as expectativas econômicas são formadas.

Parcerias como motor de expansão

O Fed não é o único a utilizar dados da Kalshi como base para análises e debates. Outro motor importante para a expansão da empresa são as parcerias estratégicas firmadas pela plataforma.

A parceria com a corretora Robinhood colocou a Kalshi no centro do que hoje representa a maior parte do seu negócio: o segmento esportivo, que movimenta não apenas grande volume financeiro, mas também alta frequência de negociações — algo que eleições, por exemplo, não oferecem.

Com o acordo, até estados americanos que não permitem apostas esportivas tiveram de abrir espaço para a empresa, já regulamentada pela CFTC, possibilitando que clientes da Robinhood negociassem contratos da Kalshi diretamente de suas contas.

Depois vieram Sequoia Capital e Paradigm que, após investimentos milionários, transformaram a Kalshi em uma empresa “unicórnio”, avaliada em US$ 2 bilhões. Mais recentemente, uma nova rodada de investimentos elevou o valuation da startup para US$ 22 bilhões, consolidando-a como a empresa mais relevante do mercado global de preditivos.

As pedras nos sapatos do mercado de previsões

Mesmo sendo a primeira bolsa de derivativos de eventos regulada em nível federal nos EUA, a Kalshi não está livre de obstáculos. Recentemente, estados como Nevada e Nova Jersey tentaram classificar suas operações como jogos de azar.

Segundo Nevada, a Kalshi não possuía licença estadual para esse tipo de atividade e permitia que menores de 21 anos — idade legal para jogos nos Estados Unidos — negociassem contratos de eventos futuros. A decisão favoreceu o estado em março deste ano e foi prorrogada em abril.

Já Nova Jersey enviou uma notificação extrajudicial à empresa, alegando que a inclusão de contratos esportivos na plataforma violava leis estaduais que proíbem apostas em esportes universitários.

A Kalshi processou o estado, argumentando que seus contratos se enquadram como “swaps”, um tipo de derivativo financeiro que, segundo a Commodity Exchange Act, só pode ser regulamentado pela CFTC — o mesmo órgão que concedeu à empresa a licença para operar como mercado designado de contratos (DCM).

Após decisão favorável à Kalshi em primeira instância, Nova Jersey recorreu. Ainda assim, a maioria dos juízes do painel do 3º Circuito concluiu que a Commodity Exchange Act provavelmente prevalece sobre a legislação estadual.

Fora dos Estados Unidos, em 24 de abril de 2026, o Banco Central brasileiro proibiu as operações da empresa e de qualquer mercado de previsões, ao considerar que seus contratos configuram apostas não esportivas — prática ilegal segundo a Lei das Bets.

Para se ter ideia: a Kalshi mantém contratos esportivos, mas também oferece papéis envolvendo acontecimentos como a estreia da 22ª temporada do reality show The Bachelor ou a possibilidade de Donald Trump visitar a China até abril.

Na prática, a resolução publicada em abril impede que plataformas ofereçam apostas relacionadas a eleições, jogos, reality shows e outros acontecimentos sem natureza econômica, a critério da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

Ainda assim, o plano da Kalshi de operar no Brasil não foi totalmente por água abaixo. Mais uma vez, a empresa apostou em uma estratégia de expansão via parceria — desta vez com a corretora XP.

Com isso, mesmo após o bloqueio, clientes da XP continuam podendo aplicar em contratos econômicos da Kalshi por meio de contas internacionais.

Apesar das disputas regulatórias, a Kalshi segue respaldada pela legislação federal americana, o que protege seus interesses e viabiliza sua expansão dentro do mercado.

No entanto, as próprias autoridades responsáveis por supervisionar o setor também vêm enfrentando críticas por se mostrarem cada vez mais flexíveis em relação às regras. Junto ao boom dos mercados preditivos, a agência reguladora federal encolheu ao menor tamanho dos últimos 15 anos.

Segundo os dados mais recentes divulgados pela CFTC, o quadro de funcionários caiu 24% desde que Donald Trump retornou ao poder, levantando preocupações sobre a capacidade da agência de combater o insider trading (negociações com informações privilegiadas) e proteger os consumidores.

A empresa, por sua vez, se posiciona publicamente contra o insider trading e, como forma de proteção, evita negociar contratos considerados sensíveis — como captura ou morte de líderes políticos, invasões militares e guerras —, além de suspender usuários suspeitos de operar com informação privilegiada.

Como o Oakland Athletics de 2002, as probabilidades posicionam a Kalshi cada vez mais no topo da competição entre os mercados. Mas nada disso a tira de um campo minado formado entre a força da regulamentação e a opinião popular sobre os seus negócios.



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